O ministro da Segurança Pública e Justiça de El Salvador, Gustavo Villatoro, esteve no Brasil nesta segunda-feira (31) para apresentar o controverso modelo de combate ao crime organizado adotado em seu país. Em uma palestra na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista, Villatoro defendeu veementemente as ações do governo de Nayib Bukele e classificou as denúncias de violação de direitos humanos como uma “manipulação” orquestrada para descreditar o sucesso salvadorenho.
A visita e a fala do ministro ocorrem em um momento de intenso debate sobre segurança pública no Brasil, com o modelo de El Salvador sendo frequentemente elogiado por figuras políticas de direita. A abordagem salvadorenha, marcada por um rigoroso estado de exceção e prisões em massa, tem gerado tanto admiração por seus resultados na redução da criminalidade quanto fortes críticas por seus métodos.
O Modelo de Segurança de El Salvador em Debate
O “modelo El Salvador” é a principal bandeira do governo do presidente Nayib Bukele, no poder desde 2019. Sua gestão focou no combate implacável às gangues que historicamente aterrorizavam o país, resultando em uma queda drástica nos índices de criminalidade. Em 2015, El Salvador registrava um pico de 103 homicídios por 100 mil habitantes. Quando Bukele assumiu, em 2019, esse número já havia caído para 35,9, e as projeções para 2025 indicam uma taxa de apenas 1,3 por 100 mil habitantes.
Para alcançar esses resultados, o governo implementou medidas drásticas, incluindo a decretação de um Estado de Exceção, que já foi prorrogado por mais de 50 vezes. Sob esse regime, garantias constitucionais foram suspensas, permitindo prisões sem mandados ou provas substanciais, muitas vezes baseadas em denúncias anônimas. Mais de 91.500 pessoas foram presas, o que corresponde a cerca de 1,5% da população total do país.
Um dos símbolos mais visíveis dessa política é o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), um megapresídio inaugurado em 2023 com capacidade para 40 mil detentos, tornando-se a maior prisão das Américas. A construção de instalações como o CECOT visa abrigar a crescente população carcerária, fruto das operações de segurança.
A Visão do Ministro Villatoro e as Críticas Rebatidas
Durante sua apresentação na Fiesp, Gustavo Villatoro não poupou palavras ao defender as políticas de seu país. Ele afirmou que as acusações de violação de direitos humanos são uma tentativa de “manipular” e “destruir nosso trabalho”. “Porque, infelizmente para eles, mesmo sendo um país pequeno e pobre, estamos dando o exemplo de como enfrentar organizações criminosas”, declarou o ministro, que foi aplaudido de pé pela plateia ao final de sua fala.
Villatoro classificou os defensores de direitos humanos como “hipócritas” e insistiu que todas as ações do governo foram baseadas na “vontade do povo”. Ele defendeu o Estado de Exceção como uma “ferramenta constitucional” essencial para “declarar guerra a um estado criminoso paralelo”, reconhecendo que não oferece “soluções prontas”, mas sim um meio para combater o crime organizado.
O ministro salvadorenho também defendeu que houve responsabilização individual de mais de 80 mil criminosos presos e condenados, apesar das denúncias de julgamentos coletivos e prisões sem provas. Ele chegou a descrever as ações no país como um “milagre” e uma “obra não só de um homem, mas de Deus”, atribuindo o sucesso a uma oportunidade divina e à liderança de um homem que ama El Salvador.
Curiosamente, a transmissão do evento da Fiesp no YouTube teve o áudio parcialmente interrompido durante a palestra de Villatoro e a exibição de um vídeo institucional do governo de El Salvador, com um aviso sobre “questões relacionadas aos direitos autorais”.
Repercussão e Apoio Político no Brasil
A visita de Gustavo Villatoro ao Brasil e a defesa do modelo salvadorenho ganham destaque no cenário político nacional, especialmente entre figuras da direita. O Congresso de Segurança Pública da Fiesp contou com a participação de diversos políticos brasileiros, incluindo Alfredo Gaspar (PL), que é candidato à vice-presidência na chapa de Flávio Bolsonaro (PL); Sergio Moro (PL), candidato ao governo do Paraná; e Guilherme Derrite (PP), candidato ao Senado por São Paulo.
No domingo (30), um dia antes da palestra na Fiesp, o senador Flávio Bolsonaro (PL) se encontrou com Villatoro em São Paulo. Bolsonaro elogiou o governo de Bukele por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo dele”, ignorando as denúncias de violações de direitos humanos. O senador defendeu a necessidade de prender mais pessoas no Brasil, que já possui quase 1 milhão de presos.
“Tem pouco preso no Brasil, tinha que ter mais. Só não tem mais porque a legislação é frouxa. Por isso que nós vamos criar mais de meio milhão de vagas em presídios para que ladrão de celular e comércio tenha no mínimo oito anos de cadeia e fique preso”, afirmou Flávio Bolsonaro. Ele também defendeu que o PL e seus aliados busquem mais cadeiras no Congresso para aprovar mudanças legislativas que permitam a implementação de medidas semelhantes às de El Salvador, sem mencionar o regime de exceção permanente.
Outros candidatos brasileiros já se manifestaram sobre o modelo de El Salvador. Romeu Zema (Novo) elogiou o modelo, mas rejeitou a adoção de prisões sem mandado no Brasil. Renan Santos (Missão) propôs a criação de megaprisões nos moldes salvadorenhos, mas também negou a intenção de reproduzir prisões sem mandado. Já Ronaldo Caiado (PSC) mencionou que representantes de El Salvador visitaram Goiás para conhecer modelos de presídios do estado. A discussão sobre a importação de tais políticas para o Brasil reflete a busca por soluções para a criminalidade, mas também levanta sérias questões sobre os limites da ação estatal e a preservação das garantias individuais.
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