O Governo do Distrito Federal (GDF) está cobrando R$ 1 milhão de uma Organização Não Governamental (ONG) presidida por Karina Ferreira da Gama, que também é sócia-administradora da produtora do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. A cobrança se refere a falhas graves na execução de um convênio na área de educação, que totalizava R$ 5 milhões.
Os problemas, detalhados em relatórios da Secretaria de Educação, incluem a entrega de kits de robótica que não funcionavam corretamente, a ausência de suporte técnico adequado e a falta de apresentação da documentação final do projeto. A situação levanta questões sobre a fiscalização de contratos públicos e a responsabilidade das entidades parceiras na aplicação de recursos.
Acusações de inexecução e cobrança milionária
A Fundação de Apoio à Pesquisa do DF (FAP-DF) enviou, no dia 12 de junho, um parecer ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), a ONG em questão, rejeitando as contas do projeto e formalizando a cobrança. O valor de R$ 1 milhão está diretamente ligado a um aditivo contratual firmado em janeiro de 2025, que elevou o convênio original de R$ 4 milhões (assinado em 2023) para R$ 5 milhões.
A ONG recebeu um prazo de 15 dias para apresentar sua defesa, o que pode levar à revisão ou manutenção da cobrança. Além disso, o governo local informou ao ICB que pretende reavaliar a execução de toda a parceria, buscando apurar “eventual débito adicional decorrente das parcelas não executadas ou não comprovadas do objeto originalmente pactuado”, o que pode ampliar o valor total devido.
O projeto Steam Maker e as falhas apontadas
O convênio tinha como objetivo principal o projeto Steam Maker, que visava à criação de laboratórios de robótica em escolas do DF. A proposta era permitir que alunos pudessem criar, consertar e modificar objetos, fomentando o aprendizado em tecnologia e inovação. O ICB se comprometeu a fornecer gabinetes móveis com materiais e ferramentas, além de kits contendo notebooks, impressoras 3D e equipamentos de robótica.
O plano inicial previa o atendimento a pelo menos 500 alunos. Caso essa meta tenha sido cumprida, o investimento por estudante seria de R$ 10 mil, um valor considerável que exige uma entrega de alta qualidade e funcionalidade. No entanto, os relatórios finais do GDF não especificam quantos estudantes foram efetivamente beneficiados, gerando dúvidas sobre o alcance real do projeto.
Relatos de visitas às escolas, anexados ao processo do convênio, evidenciam as deficiências desde 2024. Professores reclamaram de equipamentos com falhas, falta de treinamento adequado para o uso de impressoras 3D e, em um caso, a oferta de um simples link de vídeo do YouTube como “suporte” técnico. Em outubro de 2025, docentes de outra unidade escolar apontaram a “fragilidade do material” entregue, com “descolamento frequente das tampas traseiras dos kits, trilhos e módulos”, levando a “reparos improvisados com fita crepe como medida paliativa”.
Apesar dessas reclamações, o GDF havia aprovado a prestação de contas da primeira etapa do convênio, de R$ 4 milhões, antes de firmar o aditivo de R$ 1 milhão, o que levanta questionamentos sobre os critérios de avaliação e fiscalização adotados.
Conexão com o filme “Dark Horse” e contexto político
A ligação de Karina Ferreira da Gama com a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa-metragem “Dark Horse” sobre Jair Bolsonaro, adiciona uma camada de interesse público ao caso. O filme já esteve no centro de uma polêmica anterior, quando diálogos revelaram que o senador Flávio Bolsonaro (PL) teria solicitado dinheiro para a produção a Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master, gerando uma crise na pré-campanha presidencial.
Essa conexão ressalta a importância da transparência e da rigorosa fiscalização em convênios que envolvem figuras ou entidades com vínculos políticos, especialmente quando se trata de recursos públicos destinados a áreas essenciais como a educação. A inexecução de projetos dessa natureza não apenas gera prejuízo financeiro, mas também compromete o desenvolvimento educacional de estudantes que deveriam ser os principais beneficiários.
A defesa da ONG e os próximos passos
Em nota, a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) negou a inexecução do projeto, afirmando que as atividades foram realizadas e que a defesa será apresentada dentro do prazo estipulado. A expectativa é que a defesa detalhe a prestação de contas e conteste as alegações de falhas, buscando reverter a cobrança.
Enquanto isso, a decisão do GDF de reavaliar todo o convênio de R$ 5 milhões indica que o caso pode ter desdobramentos ainda maiores, com a possibilidade de novas cobranças ou até mesmo a abertura de investigações mais aprofundadas sobre a gestão dos recursos. A sociedade aguarda por clareza e responsabilização em um episódio que envolve verbas públicas e a educação de jovens no Distrito Federal.
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