
A ascensão da pauta de segurança nas urnas latino-americanas
A segurança pública consolidou-se como o principal motor de vitórias eleitorais na América Latina nos últimos anos. Um levantamento conduzido pelo cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), revela que 70% das disputas eleitorais ocorridas na região desde 2023 foram decididas por candidatos que priorizaram o combate ao crime organizado e a restauração da ordem em suas plataformas de governo.
O estudo aponta que, de um total de 19 pleitos analisados, 13 foram vencidos por lideranças que transformaram a campanha em um verdadeiro plebiscito sobre a segurança pública. O levantamento excluiu países como Venezuela, Cuba e Nicarágua, devido à contestação internacional sobre a legitimidade de seus processos eleitorais.
O modelo de tolerância zero como ativo político
O fenômeno ganhou tração com a reeleição de Nayib Bukele em El Salvador, em 2024. Sua política de tolerância zero contra grupos criminosos tornou-se uma referência regional, sendo replicada em discursos e planos de governo em diversas nações. O impacto dessa narrativa é evidente em casos recentes, como a eleição de Laura Fernández na Costa Rica, que prometeu a construção de prisões baseadas no modelo salvadorenho.
Outro exemplo emblemático ocorreu na Colômbia, com a vitória de Abelardo de la Espriella. O advogado, alinhado à extrema-direita, conquistou o eleitorado com promessas de uma ofensiva militar contundente contra o narcotráfico e a criação de dez megaprisões para desafogar o sistema carcerário e isolar lideranças criminosas.
Impactos e reflexos no cenário brasileiro
A estratégia de endurecimento penal e fortalecimento das forças policiais também reverbera no Brasil. O plano de segurança do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) incorpora explicitamente o modelo de El Salvador, prevendo a construção de cinco novos presídios de segurança máxima. Essa tendência reflete uma demanda social crescente por autoridade estatal em áreas vulneráveis.
Segundo Murilo Medeiros, o cenário é sintomático de uma percepção generalizada de falha do Estado. “Com a violência no centro da preocupação social, cresce a demanda por líderes que prometem endurecimento penal, fortalecimento policial, combate direto ao crime organizado e retomada da autoridade estatal”, explica o pesquisador. A corrupção, aliada à insegurança, compõe o binômio que deve ditar o tom das eleições de outubro no Brasil.
A recorrência dessa pauta em países como Chile, Bolívia, Equador e Honduras demonstra que o eleitorado latino-americano está cada vez mais inclinado a apoiar propostas que ofereçam respostas rápidas e enérgicas para a crise de segurança. O desdobramento desses resultados indica que a pauta deve permanecer no centro do debate político regional por tempo indeterminado.
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