Uma operação deflagrada pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (10) colocou sob o foco das autoridades um complexo esquema envolvendo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização responsável por um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi em áreas periféricas da capital. Entre os alvos da investigação estão a empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária do ICB e da produtora Go Up — responsável pelo filme “Dark Horse” —, além de fornecedores terceirizados que operam na execução do serviço público.
A ação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, apura uma série de crimes graves, incluindo peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraudes licitatórias. Ao todo, pelo menos 49 mandados de busca e apreensão foram cumpridos, revelando conexões que vão desde a gestão pública municipal até figuras ligadas ao crime organizado, como o empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, ex-dono da Favela Conectada, que está preso sob acusação de feminicídio.
Disputas judiciais e suspeitas de irregularidades
O contrato, que deveria levar conectividade à população, tornou-se palco de uma batalha jurídica intensa entre o ICB e a empresa Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda., uma das subcontratadas. A Ultra IP cobra na Justiça cerca de R$ 4,5 milhões, alegando que o instituto não cumpriu com os pagamentos devidos e que houve manipulação na execução dos serviços. Por outro lado, o ICB sustenta que a terceirizada interrompeu o fornecimento de internet em centenas de pontos e tentou extorquir a direção da ONG em R$ 2,5 milhões.
A investigação também aponta para o uso de empresas que funcionariam como fachada para justificar despesas do convênio. Documentos citados em ações judiciais sugerem que a Favela Conectada teria recebido R$ 12 milhões para a instalação de 2 mil pontos de acesso, sem que o serviço fosse efetivamente entregue. A Prefeitura de São Paulo, por meio do prefeito Ricardo Nunes (MDB), afirmou que a Controladoria Geral do Município monitora o contrato desde o início e que, até o momento, não foram detectadas irregularidades na execução do convênio.
Conexões políticas e o financiamento de produções
Além das questões técnicas sobre a rede de internet, a operação da PF levanta suspeitas sobre a destinação de emendas parlamentares. Investigações indicam que recursos públicos, possivelmente oriundos de emendas de parlamentares do PL, como os ex-deputados Alexandre Ramagem e Carla Zambelli, além dos deputados Bia Kicis e Marcos Pollon, teriam sido direcionados a entidades ligadas a Karina da Gama. A suspeita é que esse montante tenha servido para financiar, de forma indireta, a produção do filme “Dark Horse”.
A defesa do ICB e da empresária Karina da Gama nega as acusações, classificando as investidas da Ultra IP como má-fé e retaliação. Em contrapartida, a Ultra IP afirma que sua ação judicial possui caráter estritamente probatório, visando esclarecer ao Poder Judiciário a natureza das relações contratuais e a execução dos serviços prestados. A empresa reforça que busca apenas o recebimento de valores que entende como devidos pela execução do trabalho técnico nas comunidades.
Desdobramentos da investigação federal
O cenário atual coloca sob pressão a gestão municipal e as entidades envolvidas no contrato. Com o aprofundamento das investigações, a Polícia Federal busca rastrear o fluxo financeiro entre as empresas, a ONG e os agentes públicos envolvidos. A complexidade do caso, que envolve desde a infraestrutura digital básica para a periferia até o financiamento de produções culturais e possíveis elos com facções criminosas, promete novos desdobramentos nas próximas semanas.
O M1 Metrópole segue acompanhando os desdobramentos desta investigação e os próximos passos das autoridades judiciais. Continue conectado ao nosso portal para receber informações apuradas, análises contextuais e o acompanhamento diário dos temas que impactam a administração pública e a sociedade brasileira com a credibilidade que você já conhece.