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Endividamento recorde: como o crédito acelerou o consumo nas periferias de São Paulo

Foto: Marcos Limonti/Código 19/Estadão Conteúdo
Foto: Marcos Limonti/Código 19/Estadão Conteúdo

O cenário econômico brasileiro atravessa um momento de contradição profunda. Enquanto o acesso a bens de consumo cresceu significativamente nas últimas duas décadas, o endividamento das famílias atingiu patamares históricos, comprometendo quase 30% da renda mensal dos lares, segundo dados do Banco Central. Esse fenômeno, que se manifesta de forma aguda nas periferias paulistanas, revela uma mudança estrutural na lógica de sobrevivência: a inversão do ciclo onde, atualmente, o consumo precede o pagamento.

A nova lógica do consumo parcelado

A dinâmica de aquisição de bens passou por uma transformação radical. Antigamente, a compra de itens duráveis, como geladeiras ou televisores, dependia de um planejamento de longo prazo e da formação de poupança. Com a expansão do crédito facilitado, essa realidade foi substituída pela cultura do parcelamento contínuo. O geógrafo e professor da Unicamp, Kauê Lopes dos Santos, autor do livro “Parcelado”, observa que essa celeridade no fluxo de compra, uso e descarte não se traduziu em uma redução real da pobreza.

O pesquisador destaca um contraste marcante: é comum encontrar aparelhos eletrônicos de última geração em residências localizadas em áreas que ainda carecem de infraestrutura básica, como saneamento e pavimentação. Esse padrão de consumo, embora integre a população ao sistema financeiro, mantém as famílias em uma vulnerabilidade constante, onde a renda mensal é quase inteiramente absorvida por prestações, limitando a capacidade de poupança e aumentando a dependência de novos empréstimos para fechar o mês.

O impacto do crédito na vida cotidiana

Para muitas famílias, o cartão de crédito tornou-se uma ferramenta de sobrevivência, e não apenas de lazer. A diarista Silvana Chagas Bernardo Severino, moradora do Itaim Paulista, ilustra essa rotina. Com uma renda instável, ela recorre ao crédito de terceiros para suprir necessidades básicas e adquirir eletrodomésticos essenciais. Esse comportamento, que se repete em milhões de lares, é o que mantém o endividamento em níveis recordes, com cerca de 49% da população brasileira apresentando algum tipo de débito, conforme apontado pela Serasa Experian.

O sistema financeiro, ao incluir massivamente esses novos consumidores, impôs condições muitas vezes desiguais. Os juros elevados e a facilidade de acesso ao crédito consignado privado criaram uma armadilha financeira. O governo federal tem buscado intervir com programas como o Desenrola Brasil, visando renegociar dívidas e aliviar o peso sobre o orçamento doméstico, mas o desafio estrutural permanece latente.

Desigualdade, raça e o futuro do consumo

A análise do endividamento não pode ser dissociada das questões raciais e territoriais. Nas periferias de São Paulo, onde a população negra é majoritária, o peso das dívidas reflete desigualdades históricas que o consumo, por si só, não consegue mitigar. O crédito, ao ser ofertado sem a contrapartida de melhorias em serviços públicos e renda estável, acaba por aprofundar a vulnerabilidade financeira desses grupos.

O superendividamento, portanto, não é um erro de cálculo individual, mas um efeito colateral de um modelo econômico que priorizou a integração pelo consumo. Enquanto o debate sobre juros e regulação avança, o cotidiano nas periferias segue marcado pelo esforço de equilibrar contas, priorizar pagamentos e gerir a escassez em um cenário onde o “comprar agora e pagar depois” tornou-se a única alternativa possível.

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