PUBLICIDADE

Cortes no programa de combate ao HIV de Trump afetam 77 mil crianças e fecham clínicas

Cortes no programa de combate ao HIV de Trump afetam 77 mil crianças e fecham clínicas
28.jun.26/AFP

Os impactos dos cortes promovidos pelo governo Donald Trump no maior programa americano de combate ao HIV, o PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente para o Alívio da Aids), revelam um cenário preocupante para a saúde global. Estudos recentes indicam que as reduções de financiamento resultaram na exclusão de 77 mil crianças soropositivas da rede de tratamento apoiada pelo projeto em apenas um ano, marcando uma queda de 14,2% no tratamento pediátrico.

Além do impacto direto nas crianças, as medidas levaram ao fechamento de aproximadamente 1.700 pontos de atendimento em 46 países, afetando severamente programas de prevenção e serviços essenciais a populações vulneráveis. A gravidade da situação foi um dos temas centrais da Conferência Internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro, que reuniu milhares de especialistas em um momento crítico para a resposta global à doença.

PEPFAR: um pilar no combate global ao HIV

O PEPFAR, lançado em 2003, é reconhecido mundialmente como um dos programas mais ambiciosos e bem-sucedidos na história da saúde pública global. Sua atuação tem sido fundamental para salvar milhões de vidas, especialmente em países de baixa e média renda, ao fornecer tratamento antirretroviral, serviços de prevenção e apoio a órfãos e crianças vulneráveis afetadas pelo HIV/Aids.

No entanto, a gestão Trump implementou cortes significativos e impôs novas diretrizes que redefiniram as prioridades do programa. Essas mudanças, conforme detalhado nos estudos apresentados na conferência, desmantelaram parte da estrutura construída ao longo de anos, comprometendo a continuidade de serviços vitais e o acesso ao tratamento para as populações mais necessitadas.

Impacto multifacetado nas organizações parceiras

O levantamento conhecido como Pepfar Pulse Study, conduzido entre novembro de 2025 e abril de 2026, ouviu 166 organizações parceiras que executam o programa em 46 países. A pesquisa, apresentada por Elise Lankiewicz, da amfAR, revelou que essas organizações foram atingidas de duas formas distintas e igualmente prejudiciais.

Primeiramente, mais da metade (52%) dos parceiros teve ao menos um repasse cancelado por completo. Esses cancelamentos foram a principal causa para o fechamento de mais de 1.700 clínicas, centros de acolhimento e outros pontos de atendimento. A pesquisa destacou que as organizações locais foram as mais afetadas, mostrando-se significativamente mais propensas a ter contratos cancelados e a fechar suas portas em comparação com parceiros internacionais.

Em segundo lugar, mesmo as organizações que mantiveram o financiamento (77% delas) foram obrigadas a cumprir novas e restritivas políticas americanas como condição para continuar recebendo os recursos. As exigências incluíam a limitação da programação a atividades estritamente definidas como “de salvamento de vidas”, além de restrições ligadas a princípios de diversidade, equidade e inclusão (DEI) e questões de gênero. Essas imposições alteraram a natureza abrangente dos programas, que muitas vezes dependem de uma abordagem holística para serem eficazes.

A Conferência Internacional de Aids no Rio e o cenário global

A Conferência Internacional de Aids, organizada pela IAS (Sociedade Internacional de Aids), que congrega mais de 11 mil profissionais de HIV globalmente, chega em um momento de crise de financiamento sem precedentes. A edição no Rio de Janeiro, a primeira na América do Sul, serviu como um palco crucial para debater os desafios impostos pelos cortes e pela falta de compromisso político.

Beatriz Grinsztejn, presidente da IAS, co-presidente da Aids 2026 e diretora da Unidade de Pesquisa Clínica em HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, no Rio, enfatizou a urgência da situação. “A ciência está avançando rápido, nos dando ferramentas mais poderosas de prevenção e tratamento do HIV. Mas esses avanços não conseguem salvar vidas se nunca chegam a quem precisa. Isso exige financiamento robusto e estável e compromisso político constante”, afirmou Grinsztejn, sublinhando a desconexão entre o progresso científico e a capacidade de implementação devido à escassez de recursos.

Consequências e o futuro do combate ao HIV

A redução drástica no acesso ao tratamento para crianças soropositivas e o fechamento de clínicas representam um retrocesso significativo na luta contra o HIV/Aids. As consequências a longo prazo podem incluir o aumento da transmissão vertical do vírus, o ressurgimento de casos em regiões onde a doença estava sob controle e a fragilização de sistemas de saúde já sobrecarregados.

A comunidade global de saúde aponta para a necessidade urgente de reverter esses cortes e garantir um financiamento estável e previsível para programas como o PEPFAR. A continuidade do combate ao HIV/Aids depende não apenas de avanços científicos, mas também de uma vontade política inabalável e de investimentos consistentes para que as ferramentas de prevenção e tratamento cheguem a todos que delas necessitam.

Para mais informações sobre a Conferência Internacional de Aids e as iniciativas globais, visite o site oficial da Sociedade Internacional de Aids.

Continue acompanhando o M1 Metrópole para ficar por dentro das notícias mais relevantes do Brasil e do mundo, com análises aprofundadas e informações contextualizadas sobre saúde, política, economia e muito mais. Nosso compromisso é trazer a você um jornalismo de qualidade, que importa para o seu dia a dia.

Leia mais

PUBLICIDADE