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Vacina Qdenga: estudo em Belo Horizonte aponta maior incidência de reações alérgicas

Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Em um cenário de intensificação das campanhas de vacinação contra a dengue, um estudo recente realizado em Belo Horizonte trouxe à tona dados importantes sobre a incidência de reações alérgicas à vacina Qdenga, da fabricante Takeda. O levantamento, que analisou um período de um ano de imunização na capital mineira, identificou uma frequência de hipersensibilidade superior àquela observada nos ensaios clínicos e estudos-piloto que precederam a comercialização do imunizante.

A pesquisa, publicada na revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, emerge como um ponto de atenção para autoridades de saúde e para a população, especialmente em um momento em que a dengue representa um desafio significativo para a saúde pública brasileira. Embora a Takeda reforce que o perfil de segurança da vacina permanece inalterado, os achados de Belo Horizonte sublinham a importância da vigilância contínua pós-comercialização de novos imunizantes.

Incidência de reações à vacina Qdenga em Belo Horizonte

O estudo detalhou 28 casos de hipersensibilidade identificados entre 146.115 doses da vacina Qdenga aplicadas em crianças de 6 a 14 anos, no período de fevereiro de 2024 a fevereiro de 2025. Desse total, 104.286 foram primeiras doses e 41.829, segundas doses. É relevante notar que todas as reações adversas foram registradas após a aplicação da primeira dose, com a idade média dos pacientes afetados sendo de 9,4 anos.

Entre os casos de hipersensibilidade, 9 foram classificados como anafilaxia e 2 como choque anafilático, situações que exigem atenção médica imediata. Felizmente, todos os pacientes que apresentaram reações receberam o atendimento necessário e tiveram recuperação completa em até 48 horas. A incidência geral de eventos adversos pós-vacinação foi de 191,6 casos por milhão de doses, o que equivale a 1 a cada 10 mil doses. Especificamente para anafilaxia, a taxa em Belo Horizonte foi de 61,6 por milhão, contrastando com a incidência nacional observada de 36,4 casos por milhão de doses.

A origem da pesquisa e a reclassificação dos casos

A iniciativa para a realização do estudo partiu de observações de profissionais de saúde da Prefeitura de Belo Horizonte, que notaram um número de reações acima do esperado durante a campanha de vacinação. O infectologista Alexandre Sampaio Moura, da Faculdade da Santa Casa e autor correspondente do estudo, explicou que a equipe de pesquisadores realizou uma revisão minuciosa de todas as notificações registradas no sistema e-SUS Notifica. Em seguida, os casos foram reclassificados seguindo critérios padronizados para anafilaxia, garantindo maior precisão na análise.

Inicialmente, a hipótese era de que o aumento nas notificações poderia ser atribuído a um maior cuidado na comunicação de eventos adversos, dada a novidade da vacina. No entanto, a tabulação dos dados revelou que a incidência de hipersensibilidade era, de fato, superior àquelas observadas em outras vacinas já consolidadas no calendário de vacinação infantil. Este achado ressalta a importância da vigilância farmacológica e da pesquisa em vida real para complementar os dados obtidos em ambientes controlados de ensaios clínicos.

A posição da Takeda e o contexto da vacinação contra a dengue

Em resposta aos dados, a Takeda, fabricante da Qdenga, recomendou cautela na interpretação dos resultados, enfatizando que se trata de um recorte temporal e geográfico limitado. A empresa reiterou que as reações alérgicas já estão previstas na bula do imunizante e que os dados do estudo de Belo Horizonte, isoladamente, não alteram o perfil de segurança da vacina, que é sustentado por um vasto conjunto de evidências clínicas, acompanhamento de longo prazo e estudos de vida real conduzidos em diversas partes do mundo.

A vacina Qdenga foi incorporada ao SUS (Sistema Único de Saúde) em 2024, inicialmente para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, faixa etária com alta taxa de hospitalizações por dengue. Em alguns municípios, como Belo Horizonte, a faixa etária foi ampliada para incluir crianças a partir dos 6 anos, visando proteger um público ainda maior. A vigilância de eventos adversos pós-vacinação é um componente crucial de qualquer programa de imunização em massa, garantindo que a segurança dos imunizantes seja monitorada continuamente após sua introdução no mercado. Para mais informações sobre a vigilância de eventos adversos, consulte o Ministério da Saúde.

Implicações para a saúde pública e a confiança na vacinação

Os resultados do estudo de Belo Horizonte, embora não alterem o perfil de segurança geral da vacina Qdenga, fornecem informações valiosas para os programas de vacinação. Eles reforçam a necessidade de manter equipes de saúde bem treinadas para identificar e manejar rapidamente qualquer reação adversa, especialmente as mais graves como a anafilaxia. Para os pais e responsáveis, a transparência desses dados é fundamental para manter a confiança na vacinação, permitindo que tomem decisões informadas com base em informações completas e contextualizadas.

A discussão em torno da incidência de reações alérgicas à vacina Qdenga destaca a complexidade e a importância da farmacovigilância. É um lembrete de que, mesmo com vacinas seguras e eficazes, a monitorização contínua e a capacidade de resposta rápida a eventos adversos são essenciais para a proteção da saúde pública e para o sucesso das campanhas de imunização em larga escala. A ciência avança com a coleta e análise de dados do mundo real, que complementam e aprimoram o conhecimento sobre os medicamentos e imunizantes que utilizamos.

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