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Vacina da dengue do Butantan sob críticas por não passar por comitê técnico

03.mar.26/ Folhapress
03.mar.26/ Folhapress

A vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, que teve sua aplicação suspensa recentemente pelo Ministério da Saúde, encontra-se no centro de uma intensa controvérsia. O ponto principal do debate é a ausência de avaliação prévia da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), órgão técnico fundamental para a inclusão de imunizantes no SUS.

Essa omissão gerou fortes críticas por parte de entidades e figuras políticas. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e Marcelo Queiroga, ex-ministro da Saúde durante o governo de Jair Bolsonaro e pré-candidato ao Senado pelo PL na Paraíba, manifestaram publicamente seu descontentamento com a situação, alegando descumprimento de ritos legais e técnicos.

O papel crucial da Conitec na saúde pública

A Conitec é um pilar essencial para a segurança e a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde. Sua função vai além da aprovação sanitária, já realizada pela Anvisa. O comitê é responsável por analisar profundamente as evidências científicas de eficácia, acurácia, efetividade e segurança de novas tecnologias em saúde, incluindo vacinas.

Além dos aspectos clínicos, a Conitec também realiza uma avaliação econômica rigorosa, considerando o custo-benefício e o impacto orçamentário que a incorporação de um novo produto terá sobre o SUS. Essa análise multifacetada garante que os recursos públicos sejam utilizados de forma eficiente e que as tecnologias adotadas tragam o maior benefício possível à população.

Críticas e embates sobre o processo de aprovação

Marcelo Queiroga, um dos principais críticos da situação, argumenta que a atual gestão do Ministério da Saúde desrespeitou a legislação ao não submeter a vacina do Butantan à análise técnica da Conitec. Ele enfatiza que, embora a eficácia do imunizante não seja questionada, o cumprimento do rito processual é indispensável para a transparência e a segurança jurídica.

O ex-ministro chegou a anunciar a intenção de representar contra o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, no Tribunal de Contas da União (TCU), alegando improbidade administrativa pela compra da vacina sem o devido aval da Conitec. Essa medida eleva o tom da discussão, transformando a questão técnica em um embate político e legal.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) corroborou as preocupações, destacando a importância da avaliação específica de cada produto. Em nota, o conselho afirmou que vacinas diferentes, mesmo que para a mesma doença, podem apresentar perfis distintos de segurança, imunogenicidade e efetividade, o que exige uma análise individualizada para cada uma.

A defesa do Ministério da Saúde e os questionamentos

Em resposta às críticas, o Ministério da Saúde defendeu sua conduta, alegando que a Conitec avalia a tecnologia utilizada, e não a marca ou o fabricante específico do imunizante. A pasta argumenta que a vacina Qdenga, de origem japonesa e que emprega a mesma tecnologia, já havia passado pela análise do órgão.

Segundo o Ministério, esse princípio é o que permite a ampliação da oferta de imunizantes quando novos produtos com tecnologia similar chegam ao mercado nacional, uma prática que, de acordo com a nota, foi repetida em governos anteriores. No entanto, Queiroga refuta essa justificativa, citando o exemplo da vacina meningocócica ACWY, que passou por nova análise da Conitec em 2019, mesmo já tendo sido aprovada anteriormente, quando houve interesse em ampliar seu público-alvo.

“Essa é a história da carochinha. Não questiono a tecnicidade da vacina, mas é preciso ter respaldo técnico, principalmente quando não há uma emergência de saúde pública”, declarou o ex-ministro, reforçando a necessidade de um processo rigoroso e transparente.

Desdobramentos e o futuro da imunização contra a dengue

A suspensão da aplicação da vacina do Butantan pelo Ministério da Saúde, anunciada no início do mês, ocorreu após o registro de duas mortes suspeitas, que ainda estão sob investigação. Esse fato adiciona uma camada de urgência e cautela ao debate sobre os procedimentos de incorporação de novas tecnologias.

A diferença na posologia entre as vacinas também é um ponto relevante: enquanto a Qdenga requer duas doses, a produzida pelo Butantan é de dose única. Essa distinção, segundo o CFM, reforça a necessidade de avaliações específicas para cada produto, garantindo que todas as particularidades sejam consideradas antes da incorporação em larga escala no SUS.

A discussão sobre a vacina da dengue e o papel da Conitec sublinha a importância da rigorosa observância dos protocolos técnicos e legais na saúde pública. A transparência e a confiança nos processos de avaliação são cruciais para a aceitação e a efetividade das campanhas de imunização, especialmente em um cenário de crescentes desafios epidemiológicos como o da dengue no Brasil.

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