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A ciência explica por que a atividade física regular é um desafio para muitos

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Apesar da crescente conscientização sobre os inúmeros benefícios da atividade física para a saúde, uma parcela significativa da população mundial ainda enfrenta dificuldades para incorporar o exercício regular em sua rotina. Essa contradição, que muitas vezes gera frustração e culpa, tem sido objeto de estudo aprofundado pela ciência, que aponta para fatores comportamentais e sociais complexos, indo além da simples falta de informação.

A percepção de que “todo mundo se exercita”, impulsionada pela visibilidade de treinos e academias nas redes sociais e no entorno imediato, é, na verdade, uma “ilusão do mundo ativo”. Pesquisas recentes indicam que, globalmente, os níveis de sedentarismo permanecem altos e, em alguns casos, até aumentaram, evidenciando um descompasso entre o conhecimento dos benefícios e a prática efetiva.

O limite da informação e a barreira comportamental

Por décadas, campanhas de saúde pública e diretrizes de organizações como a OMS (Organização Mundial da Saúde) têm enfatizado a importância da atividade física. No entanto, o modelo tradicional, que assume que informar é suficiente para mudar o comportamento, tem se mostrado limitado. É nesse cenário que um artigo científico de 2026, intitulado “Base comportamental humana para recomendar mudanças nas diretrizes de atividade física”, publicado na revista Sports Medicine and Health Science, trouxe novas perspectivas.

O estudo, assinado por Fábio Dominski e colegas, revela que a dificuldade em aderir à atividade física é um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. Ele destaca que o comportamento humano não é guiado apenas pela racionalidade. Saber que algo é bom para a saúde não se traduz automaticamente em ação, e evidências mostram que quase metade das pessoas que pretendem se exercitar não consegue transformar essa intenção em prática.

Desconto hiperbólico: a preferência por recompensas imediatas

Para compreender essa lacuna entre intenção e ação, a ciência aponta para o fenômeno do desconto hiperbólico. Do ponto de vista psicológico, a prática de exercícios físicos envolve custos imediatos, como esforço, tempo, desconforto e, por vezes, investimento financeiro. Em contrapartida, muitos dos benefícios mais valorizados, como a prevenção de doenças crônicas ou o aumento da longevidade, são recompensas que se manifestam apenas no futuro.

Nesse contexto, o cérebro humano tende a priorizar recompensas imediatas. É por isso que a atração do sofá, das redes sociais ou de uma série de televisão, que oferecem gratificação instantânea, muitas vezes supera a motivação para um treino cujos resultados são percebidos a longo prazo. Essa dinâmica explica a facilidade em adiar ou abandonar o exercício em favor de atividades que proporcionam prazer no presente.

A influência das emoções e experiências na adesão

A decisão de se exercitar não é apenas um cálculo consciente de prós e contras. Fatores como emoções, hábitos enraizados, experiências anteriores e o contexto social desempenham um papel decisivo, muitas vezes de forma automática. As pesquisas mais recentes, reforçadas pelo comentário científico de Dominski, sublinham a importância do que se sente durante a prática da atividade física.

Experiências positivas durante o exercício aumentam significativamente as chances de continuidade. Em contraste, sensações de desconforto, vergonha ou inadequação podem gerar uma aversão duradoura. Isso ajuda a entender por que a motivação inicial, frequentemente ligada à saúde, condicionamento físico ou estética, embora importante, raramente é suficiente para sustentar o hábito a longo prazo.

A psicologia do exercício explica que essas experiências constroem uma “memória afetiva” que influencia, de modo muitas vezes inconsciente, a decisão de repetir ou evitar um comportamento. Além disso, necessidades psicológicas fundamentais como autonomia, competência e pertencimento são cruciais para manter a motivação ao longo do tempo, transformando a atividade física em um hábito prazeroso e sustentável.

Fatores sociais e o paradoxo da atividade física

Além dos aspectos individuais, mudanças sociais amplas contribuem para o aumento do sedentarismo. A urbanização crescente, o uso intensivo de tecnologias que reduzem a necessidade de movimento e a diminuição da atividade física no trabalho e no deslocamento diário moldaram um cotidiano estruturalmente menos ativo. Esses fatores criam um ambiente que desestimula o movimento natural e espontâneo.

Existe também o que a ciência chama de “paradoxo da atividade física”: nem toda forma de movimento é igualmente benéfica. Esforços intensos e repetitivos em contextos de trabalho, caracterizados por baixa autonomia e alto desgaste físico, nem sempre produzem os mesmos benefícios à saúde que atividades realizadas no lazer. Esse paradoxo reforça a necessidade de abordagens mais nuançadas e personalizadas para promover a saúde através do movimento.

Compreender esses mecanismos complexos é fundamental para desenvolver estratégias mais eficazes de promoção da saúde. Não se trata apenas de informar sobre os benefícios, mas de criar ambientes e experiências que tornem a atividade física mais acessível, prazerosa e recompensadora no presente, alinhando-a com a forma como o cérebro humano toma decisões.

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