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Saúde na floresta: novos pontos de atendimento transformam a vida de ribeirinhos no Amazonas

Saúde na floresta: novos pontos de atendimento transformam a vida de ribeirinhos no Amazonas
© Lucas Bonny/FAS

A expectativa pelo quinto filho trazia consigo uma rotina exaustiva para Aldeniza Silva e Silva. Grávida de sete meses, a moradora da comunidade ribeirinha de Boa Vista, inserida na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, em Carauari (AM), enfrentava uma jornada de dois a três dias de rabeta para acessar uma consulta médica na zona urbana do município. Esse trajeto, que variava conforme o nível do rio, era a única via possível em uma região onde a grandiosidade da floresta amazônica substitui as rodovias, tornando a navegação fluvial o único elo com a cidade.

Apenas na sede municipal, como os ribeirinhos se referem à área urbana de Carauari, Aldeniza conseguia realizar seu pré-natal. Contudo, as dificuldades de acesso limitaram suas consultas a apenas três, muito abaixo do mínimo de seis recomendado pelo Ministério da Saúde. Essa realidade é compartilhada por milhares de habitantes das dezenas de comunidades ribeirinhas que compõem o vasto território rural de Carauari, uma cidade de cerca de 28 mil habitantes, localizada a mais de 1,6 mil quilômetros fluviais de Manaus.

Maria Valkiane Freitas e Silva, da comunidade de Bauana, ecoa a experiência de Aldeniza, descrevendo uma viagem de 12 horas de rabeta até a cidade, com custos de combustível que podem chegar a R$ 160 para a ida e o dobro para a volta. No entanto, uma mudança significativa começou a transformar essa realidade na última semana, com a inauguração de dois pontos de atendimento à saúde, encurtando drasticamente as distâncias para a população.

A Luta Diária por Atendimento Médico no Coração da Amazônia

A vida nas comunidades ribeirinhas do Amazonas é marcada pela beleza natural, mas também por desafios logísticos imensos, especialmente no acesso a serviços básicos como a saúde. A distância e a dificuldade de deslocamento não apenas impedem o acompanhamento preventivo, como o pré-natal de Aldeniza, mas também colocam em risco a vida em situações de emergência. A ribeirinha Cecilia Bispo de Lima, da comunidade São Francisco, lembra-se de uma vez em que adoeceu da coluna e mal conseguiu chegar à cidade, deitada no porão da embarcação.

Essa realidade, onde horas ou dias de viagem são a norma para um atendimento básico, resultava em diagnósticos tardios e tratamentos interrompidos. A prefeitura de Carauari, em casos extremos, disponibiliza ambulanchas para resgates, mas mesmo essas viagens podem durar dias, dependendo da localização da comunidade e das condições do rio. A necessidade de uma solução mais próxima e acessível era urgente para garantir a dignidade e a saúde da população.

SUS na Floresta: Uma Resposta Inovadora para a Saúde Ribeirinha

A esperança chegou com a inauguração de dois novos pontos de apoio à saúde, estrategicamente localizados mais próximos das comunidades ribeirinhas da RDS Uacari. O primeiro, batizado de Raimundo Ribeiro de Lima (Saborá) em homenagem a um líder comunitário, foi aberto no domingo passado, dia 19, na comunidade de Bauana. O segundo, que homenageia a líder comunitária Laice Santos do Nascimento, foi inaugurado na última terça-feira, dia 21, na região de Campina.

Essas unidades fazem parte do projeto SUS na Floresta, um modelo inovador que busca adaptar e fortalecer a Atenção Primária à Saúde em territórios amazônicos. A iniciativa é fruto de uma parceria público-privada robusta, desenvolvida pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em colaboração com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umame, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas.

Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, enfatiza que o objetivo não é criar uma estrutura paralela, mas sim reforçar o Sistema Único de Saúde (SUS). “Os pontos de atendimento são implantados em parceria com as prefeituras e as secretarias municipais de Saúde, e os profissionais responsáveis pelo atendimento estão vinculados à rede pública e à Estratégia Saúde da Família”, explica Sylos, garantindo a integração e a sustentabilidade do modelo.

Os Primeiros Impactos e o Alívio Imediato para as Comunidades

Os resultados foram quase imediatos. Aldeniza, por exemplo, pôde continuar seu pré-natal no posto de Campina, comemorando que a distância agora é “só de uma praia”. Ela também aproveitou para levar sua filha de seis anos, que não estava bem de saúde, para uma consulta. Rumores sobre a chegada dos postos já circulavam, e a população de São Francisco, próxima à unidade de Campina, já se preparava para buscar atendimento, aliviada pela proximidade.

Em sua primeira semana de funcionamento, os dois pontos de atendimento já evitaram diversas chamadas para as ambulanchas de resgate. Só em Campina, cinco deslocamentos foram prevenidos, incluindo o atendimento a Thiago Freitas Andrade, da comunidade de Xibuauzinho, que pisou em uma tábua com pregos. Após uma semana de dores intensas, Thiago foi atendido por um enfermeiro e uma técnica em enfermagem, recebendo medicação e orientações, sem precisar enfrentar a longa viagem até a cidade.

O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, que chegou a Campina em 12 de julho, relata a diversidade dos atendimentos: “Atendemos desde atenção a ferimentos graves, que poderia ser uma indicação de resgate, até pré-natal. Já fizemos atendimentos de hipertensos além de outros, que são mais corriqueiros aqui, como gripe. Tem muito caso gripal, principalmente em crianças. São atendimentos que poderiam ser feitos tranquilamente aqui e que as pessoas não precisariam se deslocar até Carauari”. Além de Thiago, uma criança ferida por um anzol de pesca também recebeu assistência.

Estrutura e Parcerias: O Modelo que Fortalece o Sistema Único de Saúde

A estrutura dos novos pontos de atendimento é pensada para a realidade local, oferecendo consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet e equipamentos de telessaúde. Essas unidades, localizadas dentro de bases da FAS em Carauari, estão preparadas para atender 56 comunidades ribeirinhas, beneficiando cerca de 4,7 mil pessoas com serviços essenciais como consultas médicas, enfermagem, telessaúde e odontologia.

O modelo SUS na Floresta, parte do programa Juntos pela Saúde, é um exemplo de como a inovação e a colaboração podem superar barreiras geográficas e sociais. Ao adaptar a atenção primária às particularidades da Amazônia – grandes deslocamentos, sazonalidade dos rios e baixa disponibilidade de profissionais –, o projeto não apenas oferece tratamento, mas também fortalece a prevenção de doenças e as campanhas de vacinação, como no caso de Luana do Carmo da Gama, que levará seu filho Antonio Pedro para ser imunizado.

Para a população ribeirinha, a presença desses postos significa mais do que acesso à saúde; representa dignidade, segurança e a possibilidade de um futuro mais saudável, sem a necessidade de jornadas extenuantes e dispendiosas. É um passo fundamental para integrar essas comunidades ao sistema de saúde nacional, garantindo que ninguém seja deixado para trás pela distância.

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