A crescente onda de otimismo em torno do potencial terapêutico de substâncias psicodélicas, como a psilocibina, para o tratamento de condições de saúde mental, começa a ser temperada por uma análise mais aprofundada dos resultados de pesquisas recentes. Embora o entusiasmo persista, novos estudos, incluindo aqueles com desfechos considerados ‘negativos’ em seus objetivos primários, estão fornecendo dados cruciais que recalibram as expectativas e refinam a compreensão científica sobre o tema.
psicodélicos: cenário e impactos
Essa ‘virada psicodélica’, como observada por especialistas como Marcelo Leite, colunista e autor de obras como “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira”, destaca a importância de considerar todos os achados científicos. Resultados desfavoráveis, longe de serem um retrocesso, são essenciais para o avanço do conhecimento, permitindo que a comunidade científica ajuste metodologias e interprete o verdadeiro alcance dessas substâncias.
O Estudo Episode e a Complexidade da Psilocibina
Um dos trabalhos que exemplifica essa nova fase é o estudo alemão intitulado Episode, publicado no periódico Jama Psychiatry em 18 de março. A pesquisa avaliou a eficácia e segurança da psilocibina em 144 adultos diagnosticados com depressão resistente, atendidos em dois hospitais universitários. Os participantes foram divididos em quatro grupos, recebendo combinações variadas de psilocibina (25 mg e 5 mg) ou placebo, em um formato triplo-cego, onde nem pacientes, nem experimentadores, nem avaliadores sabiam quem recebia qual substância.
Os resultados do teste clínico de fase dois foram considerados negativos em relação ao seu objetivo primário, que buscava uma redução de ao menos 50% nos escores da escala de depressão de Hamilton (HAMD17) após seis semanas. As diferenças observadas entre os grupos não atingiram significância estatística. Contudo, os autores ressaltaram que objetivos secundários, como as pontuações obtidas na escala de Beck (BDI-II), indicaram um potencial terapêutico claro da psilocibina, um padrão que já havia sido notado em outras investigações.
Desafios na Comparação: Psilocibina versus Antidepressivos
A situação do estudo Episode ecoa um artigo de 2021, liderado por Robin Carhart-Harris e publicado no New England Journal of Medicine (NEJM). Naquela ocasião, a psilocibina foi comparada diretamente com o escitalopram, um antidepressivo amplamente utilizado da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs). Assim como no estudo alemão, o teste clínico de Carhart-Harris também não alcançou o objetivo primário estatisticamente significativo, medido pela escala Qids-SR-16.
Ainda assim, o autor se empenhou em oferecer uma leitura positiva, destacando que diversas metas secundárias apontavam para um efeito terapêutico evidente. Esses casos demonstram a complexidade de medir e comparar os efeitos de substâncias com mecanismos de ação tão distintos, e como a ciência avança através da acumulação de dados empíricos, interpretações, críticas e reinterpretações.
O Efeito Nocebo e a Questão do Sigilo em Testes Clínicos
Outro artigo relevante, também publicado no Jama Psychiatry na mesma data do Episode, abordou um ponto crítico nos estudos com psicodélicos: a dificuldade de manter o sigilo sobre quem recebeu a substância ativa ou o placebo. O trabalho, liderado por Balázs Szigeti, ex-colaborador de Carhart-Harris e agora na Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), focou no chamado efeito nocebo.
Este efeito ocorre quando voluntários que não recebem a droga psicoativa, por perceberem a ausência dos efeitos subjetivos óbvios, sentem-se decepcionados e tendem a relatar uma piora, o que pode inflar artificialmente a diferença nos escores entre os grupos e fazer com que os psicodélicos pareçam mais eficazes do que realmente são. Szigeti e sua equipe compararam testes clínicos de psicodélicos com estudos de antidepressivos do tipo