A jornalista portuguesa Mafalda Anjos, com uma carreira que se estende por quase três décadas, oferece uma análise contundente sobre a relação cada vez mais tensa entre o populismo global e a imprensa. Em um cenário onde a credibilidade jornalística é constantemente posta à prova, Anjos reflete sobre a drástica mudança na percepção pública dos profissionais da notícia, que passaram de “guardiões da democracia” a alvos de ataques coordenados. A ascensão de líderes populistas em diversas partes do mundo tem redefinido o papel da mídia, transformando o que antes era um pilar da sociedade em um “inimigo do povo” a ser desacreditado.
A discussão levantada por Anjos é particularmente relevante em um contexto de polarização política e proliferação de informações nas redes sociais, onde a fronteira entre fato e opinião se torna cada vez mais tênue. A hostilidade direcionada aos jornalistas não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estratégia política deliberada que busca contornar o filtro da imprensa e estabelecer uma comunicação direta e sem questionamentos com o eleitorado. Este movimento global, como aponta a análise, representa uma ameaça direta à liberdade de imprensa e, por extensão, à própria saúde das democracias.
A erosão da credibilidade e o cenário global da imprensa
Desde 1998, quando Mafalda Anjos iniciou sua trajetória profissional, a imagem do jornalismo passou por uma transformação radical. Se antes os jornalistas eram vistos como baluartes da verdade e da democracia, hoje enfrentam uma profunda erosão de sua credibilidade. Essa mudança, embora em parte atribuível a erros internos da própria imprensa, foi catalisada pela digitalização, pela ascensão das redes sociais e pela intensa polarização política. O resultado é um ambiente onde a mídia está sob fogo cruzado, tornando-se um alvo fácil para discursos que a desqualificam.
A gravidade da situação é corroborada por relatórios internacionais. A organização Repórteres Sem Fronteiras, por exemplo, alertou recentemente para uma deterioração acentuada da liberdade de imprensa global, atingindo o nível mais baixo dos últimos 25 anos. Portugal, apesar de uma posição relativamente boa (10º lugar), não está imune às pressões. O Brasil, embora tenha subido para a 52ª posição, ainda enfrenta desafios significativos, enquanto os Estados Unidos ocupam a 64ª colocação, um reflexo das tensões internas e dos ataques à mídia.
A estratégia populista: descredibilizar para controlar a narrativa
A hostilidade contra a imprensa não é aleatória; ela se insere em uma estratégia política bem definida por líderes populistas. Ao rotular jornalistas como “inimigos do povo” ou disseminadores de “fake news”, esses políticos buscam minar a confiança pública na mídia tradicional. O objetivo é claro: eliminar os “guardiões” que escrutinam a vida pública, fazem perguntas difíceis e apontam incongruências, permitindo que a mensagem oficial chegue sem filtros aos cidadãos.
Exemplos dessa tática são abundantes. Nos Estados Unidos, o presidente popularizou a expressão “fake news” e frequentemente descreve a imprensa de referência como “desonesta, corrupta ou falida”, além de fazer acusações pessoais a repórteres. Na Argentina, o governo de Javier Milei tomou uma medida inédita ao revogar o acesso de todos os jornalistas credenciados à Casa Rosada, restringindo o acesso à informação e gerando preocupação sobre a transparência. No Brasil, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro tem replicado o padrão de hostilidade de seu pai, acusando a imprensa de “mentiras” e “viés ideológico”. Em Portugal, a extrema-direita popularizou o termo “jornalixo”, um epíteto pejorativo para descredibilizar o trabalho jornalístico. Essa orquestração global de ataques demonstra uma coordenação na tentativa de controlar a narrativa pública.
O papel essencial do jornalismo na democracia
Apesar dos ataques e da desconfiança crescente, o jornalismo mantém um papel insubstituível em qualquer democracia saudável. A função primordial dos órgãos de imprensa é, por natureza, incômoda para os poderosos. São os jornalistas que investigam, que trazem à tona informações que muitos prefeririam manter ocultas e que oferecem diferentes perspectivas sobre os acontecimentos. Eles atuam como um contrapeso fundamental ao poder, seja ele político, econômico ou social.
É inegável que jornalistas podem cometer erros, como qualquer ser humano. No entanto, a profissão é regida por um código deontológico rigoroso, que exige compromisso com princípios éticos, com a veracidade dos fatos e com a imparcialidade. Desacreditar sistematicamente a imprensa e desqualificar o seu trabalho é uma das formas mais eficazes de minar as instituições democráticas por dentro, abrindo caminho para a desinformação e para a manipulação da opinião pública.
A resiliência do jornalismo em tempos desafiadores
Diante de um cenário tão adverso, a resiliência dos jornalistas torna-se um imperativo. Mafalda Anjos compara a situação à de um familiar que cuida de um paciente com Alzheimer, continuando a zelar por ele mesmo sem ser reconhecido. Da mesma forma, cabe aos jornalistas persistir em seu trabalho, mesmo quando o reconhecimento e a valorização de sua importância para a defesa do bem comum parecem desproporcionais aos desafios enfrentados.
A manutenção de um jornalismo independente e de qualidade é vital para que os cidadãos possam tomar decisões informadas, fiscalizar seus governantes e participar ativamente da vida democrática. Sem uma imprensa livre e atuante, a sociedade fica vulnerável a narrativas únicas e distorcidas, comprometendo a transparência e a accountability. É por essa razão que o esforço contínuo dos jornalistas, em meio à hostilidade e à desinformação, é mais do que uma profissão; é um serviço essencial à coletividade.
Para aprofundar-se em análises como esta e acompanhar as principais discussões que moldam o cenário nacional e internacional, continue conectado ao M1 Metrópole. Nosso compromisso é oferecer informação relevante, atual e contextualizada, abordando uma vasta gama de temas com a profundidade e a credibilidade que você merece. Acompanhe nossas reportagens e mantenha-se bem informado sobre os fatos que realmente importam.