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Pará: promotores propõem quintuplicar comarcas de difícil acesso para compensar corte de benefícios

21.jun.24/Folhapress
21.jun.24/Folhapress

O Ministério Público do Pará (MPPA) está no centro de um debate que pode redefinir a estrutura de atuação de seus membros no estado. Uma proposta ambiciosa busca quintuplicar o número de comarcas consideradas de difícil acesso, elevando-as das atuais 16 para 77. A iniciativa, que tramita no Conselho Superior do MP do Pará, visa mitigar os impactos de cortes em benefícios, os chamados ‘penduricalhos’, após uma recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre supersalários.

A discussão, que teve sua votação interrompida em 30 de abril devido a um pedido de vista, reflete a busca por alternativas para compensar a perda de adicionais. Embora a gratificação por difícil acesso não tenha sido diretamente barrada pelo STF, a movimentação no Pará demonstra uma estratégia para assegurar compensações financeiras em um cenário de maior rigor na remuneração do funcionalismo público.

A Expansão das Comarcas no Pará e a Busca por Compensação

A proposta, enviada pela Procuradoria-Geral de Justiça do estado, representa um aumento de quase cinco vezes no número de comarcas que concederiam um benefício adicional aos promotores. Essa gratificação, por lotação e residência em comarca de difícil provimento, corresponde a 10% do subsídio do cargo, conforme a legislação estadual. Para um promotor em início de carreira, cujo salário se aproxima de R$ 35,5 mil, o adicional pode chegar a R$ 3.500.

A expansão é vista por alguns como uma medida necessária para valorizar a atuação em regiões remotas e com infraestrutura precária, garantindo a presença do Ministério Público em locais onde a justiça é mais difícil de alcançar. Contudo, a amplitude da proposta e a inclusão de municípios relativamente próximos à capital geram questionamentos sobre a real necessidade e o impacto nos cofres públicos.

O Debate Interno e a Reação da Classe

A interrupção da votação no Conselho Superior do MP do Pará gerou reações imediatas. A Associação do Ministério Público do Estado do Pará (Ampep) manifestou sua insatisfação por meio de mensagens internas, criticando a suspensão da sessão. Em um primeiro comunicado, a Ampep afirmou que o pedido de vista, embora regimental, “na prática posterga uma decisão urgente e necessária, frustrando a legítima expectativa da classe de enfrentar os graves efeitos decorrentes da decisão do STF”.

Posteriormente, a entidade emitiu outro comunicado, ajustando a linguagem e removendo a citação direta ao Supremo. A nova versão destacou que a medida “impacta diretamente a estrutura do serviço e as condições de trabalho, especialmente nas regiões mais sensíveis”, e que o adiamento da pauta para junho “impõe à instituição e aos seus membros um prolongamento de um cenário já crítico”. A repercussão interna evidencia a tensão e a expectativa da categoria em relação à aprovação da proposta.

Redefinindo o Conceito de “Difícil Acesso”

Um dos pontos mais discutidos da proposta é a redefinição do conceito de “difícil provimento”. Além da distância em relação à capital e do acesso precário, a nova classificação passaria a englobar critérios como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade, a deficiência de recursos humanos ou materiais, a demanda incompatível com a estrutura da Promotoria e a localização em região estratégica. Essa abordagem mais abrangente busca justificar a inclusão de municípios que, à primeira vista, não seriam considerados “difíceis”.

Exemplos como Acará, a 100 km de Belém, Moju, a 128 km, e Igarapé, a 143 km, foram citados como localidades que, apesar da proximidade relativa, poderiam se enquadrar nos novos critérios. A discussão sobre o que constitui “difícil acesso” é crucial, pois impacta diretamente a elegibilidade para o benefício e a percepção pública sobre a justiça na distribuição desses adicionais. Promotores também mencionam diretrizes nacionais estabelecidas para a classificação de comarcas, buscando embasar a ampliação.

Impacto e Repercussões para o Serviço Público

A aprovação da proposta no Pará pode ter implicações significativas tanto para o Ministério Público quanto para a sociedade. Por um lado, a ampliação do benefício pode ser vista como um incentivo para que promotores atuem em regiões que realmente necessitam de maior presença do Estado, melhorando o acesso à justiça. Por outro, a inclusão de comarcas menos remotas levanta questões sobre a utilização de recursos públicos e a transparência na gestão dos benefícios.

O debate sobre os “penduricalhos” no judiciário e no Ministério Público é recorrente no cenário nacional, gerando discussões sobre a moralidade e a legalidade de certas gratificações. A decisão do STF sobre supersalários trouxe à tona a necessidade de revisar e adequar as remunerações, e a movimentação no Pará se insere nesse contexto de busca por equilíbrio entre a valorização da carreira e a responsabilidade fiscal. A sociedade acompanha de perto essas discussões, ciente do impacto direto que elas têm na administração da justiça e no orçamento público. Para mais informações sobre o tema, clique aqui.

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