Uma megaoperação coordenada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo resultou na prisão de 15 pessoas e na apreensão de cerca de 10 mil aparelhos celulares sem procedência legal. A ação, que mirou uma complexa estrutura de receptação, adulteração e revenda de dispositivos, revelou como o crime organizado na capital paulista se profissionalizou para transformar itens roubados em lucro no mercado formal.
A estrutura da cadeia criminosa de aparelhos
As investigações, que duraram sete meses, detalharam um ciclo de quatro fases bem definidas. Tudo começa com a subtração violenta ou o furto dos aparelhos, muitas vezes em aglomerações, grandes eventos ou através de abordagens armadas no trânsito. Após o crime, os dispositivos são encaminhados para intermediários que realizam a invasão imediata de contas bancárias, esvaziando saldos das vítimas em poucos minutos.
O destino seguinte são os chamados laboratórios de receptação, localizados majoritariamente em centros comerciais como a Santa Ifigênia. Nesses locais, técnicos utilizam ferramentas avançadas para realizar o reset dos aparelhos e a alteração do código IMEI, tornando o rastreamento praticamente impossível. Dispositivos que não podem ser desbloqueados são desmontados para o fornecimento de peças de reposição, como telas e câmeras, alimentando um mercado paralelo de manutenção.
Fraude fiscal e a tentativa de legalização
Um dos pontos mais críticos revelados pela operação é a tentativa de reinserção dos aparelhos no mercado formal. Empresas de fachada, que operam com aparência de legalidade, emitem notas fiscais frias para dar um verniz de legitimidade aos produtos. Com a documentação adulterada, os celulares são revendidos principalmente por plataformas de comércio eletrônico, enganando consumidores desavisados.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, declarou que o Estado adotará medidas rigorosas contra esses estabelecimentos. “O próximo passo agora é a cassação da inscrição estadual em função de eles estarem comercializando produto de roubo e furto. Então a gente vai fechando o cerco”, afirmou. A estratégia do governo é exigir a comprovação fiscal rigorosa de todo o estoque dessas empresas, o que deve resultar no fechamento de diversos pontos de venda.
Origem das investigações e desdobramentos
O inquérito não nasceu de um fato isolado, mas de um esforço de inteligência que conectou dados de diversas operações anteriores, como a Operação Salus et Dignitas. O cruzamento de movimentações financeiras, relatórios de rastreamento de GPS e depoimentos de suspeitos permitiu que a polícia mapeasse a hierarquia da organização. Entre os detidos na ação desta quinta-feira (10), destaca-se um policial militar aposentado, encontrado com mais de 200 aparelhos em sua posse.
A comandante-geral da Polícia Militar, Glauce Anselmo Cavalli, reforçou que o combate à logística do crime é a chave para reduzir os índices de roubo. Segundo a corporação, ao desmantelar quem recebe e modifica o produto, o crime perde o incentivo financeiro para a prática da subtração. A Polícia Civil continua analisando o material apreendido, que encheu três caminhões e exigiu uma força-tarefa para o descarregamento na sede da Corregedoria, em São Paulo.
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