Há pouco mais de quatro meses, um imponente edifício amarelo no coração do Centro Histórico de São Paulo começou a atrair olhares de pesquisadores, arquitetos e entusiastas da história. Localizado na Rua Roberto Simonsen, 97, a poucos passos de marcos como o Pateo do Collegio e a Praça da Sé, o prédio revelou-se uma obra do renomado arquiteto Ramos de Azevedo, mente por trás de ícones paulistanos como o Theatro Municipal, a Pinacoteca e o Mercado Municipal.
Construído em 1919 para abrigar uma policlínica e a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, o imóvel desempenhou um papel crucial na assistência médica e na produção científica da capital, antecedendo até mesmo a criação da Faculdade de Medicina da USP. Sua redescoberta, após 85 anos de esquecimento, não apenas resgata uma parte valiosa da memória arquitetônica da cidade, mas também aponta para um futuro vibrante como um novo polo cultural.
A redescoberta de um ícone arquitetônico no coração paulistano
Hoje, o edifício se apresenta como uma ruína preservada pelo tempo. As paredes, que perderam o reboco, expõem os tijolos originais, enquanto infiltrações e vidraças quebradas contam a história de décadas de abandono. Contudo, em meio à degradação aparente, sobrevivem elementos raros e intactos, como os pisos centenários, a maioria dos vitrais e a cabine original do elevador, testemunhos da grandiosidade de seu projeto.
O desenvolvedor imobiliário Allan Ruiz, que adquiriu o imóvel em 2025 sem ter conhecimento de sua autoria, relata que foi justamente o longo período de desuso que, paradoxalmente, contribuiu para sua conservação. “É um imóvel com alto valor histórico que acabou ficando preservado pela falta de uso. Foram 85 anos sem ninguém pisando ou batendo prego na parede, e isso acabou ajudando a manter a estrutura física do prédio”, explica Ruiz, que guiou a equipe do M1 Metrópole pelos quatro pavimentos do edifício. A descoberta da autoria de Ramos de Azevedo veio por acaso, após Ruiz pesquisar inscrições nos tijolos e encontrar o trabalho da pesquisadora Angélica Moreira, com a confirmação definitiva vindo do Arquivo Histórico Municipal, onde as plantas originais assinadas pelo arquiteto foram localizadas.
Das origens da medicina paulista ao longo esquecimento
A antiga Policlínica de São Paulo foi concebida para integrar atendimento médico e pesquisa científica em um período em que a capital ainda estruturava suas instituições de saúde. Segundo o proprietário, o prédio oferecia atendimento gratuito em oito especialidades, além de contar com biblioteca, anfiteatro, salas de estudo e espaços para reuniões científicas. “Aqui se fazia ciência de ponta para a época. As origens da medicina de São Paulo são daqui, antes da Faculdade de Medicina”, enfatiza Allan Ruiz.
A relevância da instituição era tamanha que se manifestava até nos detalhes arquitetônicos. Alguns dos vitrais preservados exibem símbolos ligados à medicina, como as duas serpentes entrelaçadas em um totem, desenhados, segundo Ruiz, pelo próprio Ramos de Azevedo. O edifício também era considerado tecnologicamente avançado para seu tempo, sendo construído em concreto armado em 1919, uma técnica ainda incipiente em São Paulo.
A trajetória da Policlínica, contudo, foi relativamente breve. Documentos indicam que a instituição operou até 1939, quando dificuldades financeiras levaram ao seu fechamento. O imóvel foi então transferido para a Caixa Econômica, sua credora, e permaneceu sem uso regular por décadas. Em 2015, o prédio foi tombado pelo Conpresp, órgão municipal de patrimônio, reconhecendo sua importância histórica e arquitetônica.
Um restauro que celebra as marcas do tempo
O plano de Allan Ruiz para o edifício é um retrofit parcial, que visa restaurar elementos originais como vitrais e pisos, mas mantendo a estética de ruína nas paredes de tijolos expostos. “Os elementos especiais vão ser restaurados, mas a parte de alvenaria e da estrutura física do imóvel pretendo manter com essa estética de ruínas, que é o que tem fascinado as pessoas que vêm visitar. Tanto que estou chamando projeto de Ruínas do Ramos, para que as pessoas possam ver o que acontece com um imóvel quando ele fica 85 anos sem uso”, explica o empresário.
A estimativa preliminar de custo para as obras varia entre R$ 7 milhões e R$ 10 milhões. Ruiz pretende buscar mecanismos de incentivo e captação de recursos para viabilizar o ambicioso projeto, que promete ser um marco na revitalização do Centro de São Paulo.
O renascimento cultural e o interesse pela memória urbana
A intenção de Allan Ruiz é transformar o edifício em um centro cultural, uma escolha que se alinha diretamente com a preservação de sua estrutura original. “Inicialmente pensei em transformar em moradia, que é o que eu vinha fazendo nos últimos anos, e daria pra fazer apartamentos superinteressantes. Só que eu acabaria alterando muito a estrutura física do imóvel, e eu quero respeitar o projeto original do Ramos de Azevedo. Com o uso cultural, eu interfiro menos”, detalha.
O futuro “Ruínas do Ramos” será um espaço multifuncional, ideal para exposições de artistas, locações para produções audiovisuais e outros eventos. A iniciativa dialoga com a rica concentração de equipamentos culturais já existentes no entorno, como a Caixa Cultural, a Casa da Imagem, o Solar da Marquesa de Santos e o Museu das Favelas. “Aqui já é um polo cultural e turístico, e eu quero ajudar nesse movimento”, afirma Ruiz.
Em abril, uma caminhada organizada pelo pesquisador e urbanista Lincoln Paiva atraiu centenas de pessoas ao imóvel, superando em cinco vezes a expectativa inicial. Para Paiva, o episódio reflete um interesse crescente dos paulistanos pelo patrimônio histórico da cidade. “As pessoas querem conhecer suas origens. Essa reconexão com a memória urbana é fundamental para preservar o patrimônio e fortalecer a identidade da cidade”, pontua. O especialista destaca que o imóvel está localizado em um dos trechos mais antigos da cidade, sobre o antigo Caminho do Peabiru, rota indígena que deu origem à Rua do Carmo, uma das primeiras vias urbanas de São Paulo. A redescoberta, segundo ele, ajuda a combater o abandono de imóveis históricos, pois “quando conhecem, passam a valorizar e proteger”.
Alex Flemming inaugura nova fase com “Apocalipse”
Antes mesmo do início do restauro, o proprietário planeja manter o prédio aberto para visitas e eventos culturais. A primeira grande ocupação artística do espaço será a mostra “Apocalipse”, do renomado artista plástico paulistano Alex Flemming, com abertura prevista para 9 de agosto. A exposição marca o retorno do artista à cidade após 34 anos vivendo em Berlim, na Alemanha, e foi concebida para dialogar diretamente com a arquitetura e o estado de conservação do edifício.
A série “Apocalipse” nasceu em 2015, após Flemming acompanhar os atentados terroristas ao Teatro Bataclan, em Paris. O evento o levou a refletir sobre a fragilidade da civilização e o colapso de valores essenciais. Suas obras retratam monumentos emblemáticos da humanidade em cenas de destruição, incluindo a Catedral de Notre-Dame e a Sagrada Família. A mostra também explora os conceitos de Eros e Tânatos, referências à vida, desejo, morte e transformação que permeiam sua produção artística. “Tudo na vida é Eros e Tânatos. Tudo na vida é princípio e fim, é tesão e morte. E isso não é mau. São duas faces de uma mesma moeda”, reflete Flemming.
Nos Palacetes da Sé – conjunto formado pelo edifício redescoberto e por um prédio histórico anexo – a mostra será uma experiência imersiva. O público passará por ambientes com a série “Retratos Invisíveis”, composta por figuras humanas translúcidas e coloridas, antes de encontrar as obras de “Apocalipse”, numa transição simbólica entre vida e destruição. A maior parte da exposição será iluminada exclusivamente por luz natural, reforçando a conexão com o ambiente histórico do local. Para mais informações sobre a obra de Ramos de Azevedo e o patrimônio arquitetônico de São Paulo, visite o site da Pinacoteca de São Paulo.
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