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Medicamentos de alto custo: ANS adota nova estratégia para inclusão em planos de saúde via negociação

Imagem de pulmão de paciente com DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), doença que teve medicamento de alto custo incorporado no rol dos planos de saúde - Pexels
Reprodução Folha

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) está implementando um novo e pragmático instrumento para a incorporação de medicamentos de alto custo no rol de procedimentos e eventos que devem ser obrigatoriamente cobertos pelos planos de saúde. A iniciativa visa superar o impasse entre a eficácia clínica de tratamentos inovadores e o desafio econômico que seus valores representam para o sistema de saúde suplementar no Brasil.

Essa nova abordagem, que já se materializou em um caso concreto, consiste na formalização de um termo de responsabilidade com a indústria farmacêutica. Por meio desse acordo, a ANS negocia diretamente um desconto significativo, e o laboratório se compromete formalmente, via contrato, a manter as condições ofertadas. O objetivo é ampliar o acesso a terapias essenciais sem comprometer a sustentabilidade financeira das operadoras e, consequentemente, dos próprios beneficiários.

Negociação Direta: A Nova Estratégia para Medicamentos de Alto Custo

A estreia desse modelo de negociação ocorreu com a incorporação do medicamento dupilumabe, da farmacêutica Sanofi, destinado ao tratamento de pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) grave. A cobertura obrigatória para essa indicação foi estabelecida em março deste ano, marcando um precedente importante para o setor.

O acordo, assinado em fevereiro, prevê um desconto de 5% sobre o preço definido pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), somado a um desconto comercial adicional de 10% para todas as indicações já cobertas pelo rol da ANS. Além disso, a Sanofi se obrigou a estender esses descontos não apenas para a DPOC grave, mas também para outras condições para as quais o dupilumabe já tem cobertura, como dermatite atópica e asma. O descumprimento do acordo pode acarretar sanções e até mesmo a perda da incorporação do medicamento.

Segundo Lenise Secchin, diretora de normas e habilitação dos produtos da ANS, a estratégia nasceu da necessidade de resolver um problema recorrente. Em análises anteriores, tecnologias com comprovado benefício clínico eram frequentemente rejeitadas por inviabilidade econômica. “Muitas vezes o problema não é a eficácia, mas o preço. Então a gente passou a dizer: nesse valor, não dá. Vamos negociar”, afirmou a diretora durante um fórum da Fenasaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar) em Brasília.

Sustentabilidade e Acesso: O Equilíbrio Delicado nos Planos de Saúde

A questão dos medicamentos de alto custo é um dos maiores desafios para a saúde suplementar globalmente. Esses fármacos, frequentemente resultantes de pesquisas complexas e direcionados a doenças raras ou de difícil tratamento, chegam ao mercado com valores que podem inviabilizar o acesso para grande parte da população. No Brasil, essa realidade impulsiona a “judicialização da saúde”, onde pacientes buscam na justiça o direito a tratamentos não cobertos ou de alto valor.

A nova estratégia da ANS busca um equilíbrio. Ao negociar preços, a agência não apenas facilita a entrada de novas tecnologias no rol, mas também mitiga o impacto financeiro sobre os planos de saúde. É crucial lembrar que o custo de toda nova incorporação é, em última instância, repassado aos usuários por meio dos reajustes anuais nas mensalidades. Assim, a redução de preços pode ter um impacto positivo direto no bolso dos beneficiários.

A iniciativa reflete uma compreensão mais profunda da dinâmica do mercado farmacêutico e da necessidade de mecanismos flexíveis para garantir que a inovação chegue a quem precisa, sem comprometer a sustentabilidade de um sistema que atende a milhões de brasileiros. É um passo em direção a um diálogo mais construtivo entre reguladores, indústria e operadoras.

O Precedente do Dupilumabe e os Próximos Passos da Regulação

O modelo de negociação ainda está em fase de aperfeiçoamento e será amplamente debatido com a Câmara de Saúde Suplementar, um colegiado que reúne representantes de operadoras, prestadores de serviço, indústria e, crucialmente, usuários. A própria diretora da ANS reconhece que a agência está “aprendendo fazendo”, indicando que ajustes e melhorias são esperados à medida que mais casos forem analisados.

Atualmente, outra incorporação de medicamento está sendo avaliada sob essa mesma ótica. No entanto, a aplicação do instrumento depende de o proponente ser o detentor da tecnologia, ou seja, a própria indústria farmacêutica. Em situações onde o pedido de incorporação parte de terceiros, como associações médicas ou de pacientes, a ANS não possui a prerrogativa de negociar o preço diretamente, e a análise segue com base nos valores originais, o que pode limitar o alcance da estratégia.

Este novo caminho regulatório da ANS pode redefinir a forma como o acesso a tratamentos inovadores é garantido no país, promovendo um ambiente mais previsível e equitativo para todos os envolvidos. Para mais detalhes sobre o rol de procedimentos da ANS, você pode consultar o site oficial da agência.

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