A emoção de uma conquista acadêmica, muitas vezes, transcende as paredes da sala de aula e se torna um símbolo de superação e inspiração. Foi exatamente isso que aconteceu com Maria Edna Félix da Silva, de 54 anos, aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que recentemente tirou um impressionante 9 em sua prova de geografia. A celebração, genuína e carregada de afeto, viralizou após ser compartilhada em um áudio de WhatsApp com seu neto Kauã, de 15 anos, e em um vídeo que capturou o momento de sua euforia.
“Kauã, a vó tirou 9 na prova de geografia. A gente tem que assistir o g1!”, disse Maria Edna no áudio, demonstrando não apenas a alegria pela nota, mas também a importância de se manter informada, um hábito que ela cultiva e que, como se veria, foi crucial para seu bom desempenho na disciplina. Sua história ressoa com a realidade de milhares de brasileiros que buscam no EJA uma segunda chance para concluir os estudos e perseguir novos sonhos, enfrentando desafios diários com notável resiliência.
Uma Jornada de Persistência e Sonhos Renovados
A trajetória de Maria Edna é um testemunho da força de vontade. Nascida em Garanhuns, Pernambuco, ela chegou a São Paulo ainda criança, por volta dos 7 anos. Como a mais velha de cinco irmãos, precisou abandonar a escola precocemente para auxiliar sua mãe, que criava os filhos sozinha. Ao longo da vida, as tentativas de retomar os estudos foram diversas, mas sempre interrompidas por diferentes motivos, como o casamento, a criação de seus dois filhos e, mais tarde, o apoio à filha, mãe solo, nos cuidados com os dois netos.
No ano passado, Maria Edna decidiu que seria diferente. Retomou os estudos no 2º ano do Ensino Médio do EJA na Escola Celestina Valente Lengenfelder, em Francisco Morato, na Grande São Paulo, com a firme determinação de ir até o fim. A previsão é concluir o Ensino Médio em 2027 e, em seguida, prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para tentar uma vaga na faculdade de Nutrição. Nesse percurso, o neto Kauã emerge como um de seus maiores incentivadores, com a frase “Vó, você não vai parar, vó, eu te ajudo” se tornando um mantra de apoio.
A Rotina Exaustiva e o Preço da Educação
O caminho de Maria Edna rumo à faculdade é pavimentado por uma rotina extenuante. Ela trabalha em uma empresa terceirizada na área de limpeza, cumprindo jornadas de 12 horas. Nos dias que seriam de folga, atua como diarista para complementar a renda familiar. Juntos, os dois empregos geram entre R$ 2,6 mil e R$ 3 mil por mês, valor essencial para sustentar a casa onde mora com o marido e o filho, especialmente porque o marido precisou parar de trabalhar devido a problemas de saúde.
Seu dia começa por volta das 3h da manhã, com o transporte às 4h30. Após o expediente, segue diretamente para a escola, só retornando para casa perto da meia-noite. “Sabe quantas horas eu durmo por noite? Duas horas, três horas no máximo”, revela. O cansaço é uma batalha constante, e Maria Edna admite que chega a cochilar durante as aulas. No entanto, ela não está sozinha: colegas como Afonso e Luiz a acordam e a encorajam com palavras como “Tia, não para não, continua”, reforçando a importância da comunidade escolar em sua jornada.
Seu sonho de cursar Nutrição não é apenas uma aspiração profissional, mas também uma paixão. “Eu gosto de fazer pão, bolo, sonho, torta. Eu faço várias coisas, graças a Deus”, conta, conectando seu desejo de mudança de profissão com habilidades e prazeres pessoais.
O G1 como Aliado na Sala de Aula e na Vida
A frase “Tem que assistir o g1” dita por Maria Edna não é um mero detalhe, mas um reflexo de sua busca incessante por conhecimento e atualização. Sem tempo para redes sociais ou para acompanhar o noticiário na televisão, ela utiliza o celular e o aplicativo do g1 como sua principal fonte de informação. “Eu estudo, né? Então eu tenho que estar atualizada”, justifica, demonstrando a consciência de que o aprendizado vai além dos livros didáticos.
Essa dedicação à informação se mostrou um diferencial em sua prova de geografia, uma de suas disciplinas favoritas, ao lado de História. As questões abordavam temas contemporâneos que Maria Edna já havia acompanhado no noticiário, como refugiados, migrações e deslocamentos forçados por conflitos e eventos climáticos extremos. A questão 3, por exemplo, tratava dos deslocamentos provocados por guerras, como a no Irã, que já resultou no deslocamento de 3 milhões de pessoas. Já a questão 6 abordava as migrações forçadas por secas, enchentes e desastres naturais, fenômenos que geram os chamados refugiados climáticos. Reconhecer esses assuntos na avaliação foi um atestado da eficácia de sua estratégia de estudo e atualização.
A perspicácia de Maria Edna em se manter informada rendeu-lhe até um apelido carinhoso do neto Kauã: “Google”. Ao responder o áudio da avó sobre a nota, ele brincou: “parabéns, hein, Google”. A relação próxima entre avó e neto, que foram criados juntos por um período, é evidente nas pequenas interações diárias, como as mensagens que ela envia quando sabe que ele está voltando da escola, e ele responde com um afetuoso “Cheguei, Google. Tá tudo bem”.
A história de Maria Edna é um poderoso lembrete de que a busca pelo conhecimento não tem idade e que a persistência, aliada ao apoio familiar e à curiosidade pelo mundo, pode transformar vidas. Sua jornada inspira a todos a valorizar a educação e a nunca desistir de seus sonhos, independentemente dos obstáculos. Para continuar acompanhando histórias inspiradoras e as notícias mais relevantes do Brasil e do mundo, visite o M1 Metrópole, seu portal de informação atualizada e contextualizada.