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Levantamento aponta 92 casos de CACs ligados a facções criminosas

Levantamento aponta 92 casos de CACs ligados a facções criminosas
1 de 9 Alvo usado por CACs em estande de tiro em São Paulo — Foto: Luiz Gabriel Franco/g1

Um levantamento inédito realizado pelo Instituto Sou da Paz identificou 92 casos de envolvimento de CACs — colecionadores, atiradores desportivos e caçadores — com organizações criminosas no Brasil. O período analisado compreende a última década, de 2016 até o mês de outubro de 2026. Os dados detalham como o sistema de registro de armas legalizadas tem sido utilizado ou burlado por integrantes de facções para abastecer o crime organizado com armamentos e munições de diferentes calibres.

A pesquisa baseou-se na análise minuciosa de processos judiciais, boletins de ocorrência, inquéritos policiais e reportagens publicadas ao longo dos últimos dez anos. Segundo a apuração, os registros revelam dois padrões principais de atuação criminosa. No primeiro cenário, pessoas que já possuíam o registro legal, ou que foram recrutadas especificamente para obtê-lo, compram legalmente o material bélico e posteriormente o desviam para o mercado ilegal. No segundo padrão, criminosos tiram o registro em nome próprio, por vezes utilizando documentos falsos, para transitar com armamento comprado de forma lícita.

Padrões de desvio e expansão geográfica

De acordo com Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, a abrangência geográfica desse tipo de crime apresentou uma expansão expressiva ao longo dos anos. Enquanto os casos públicos mapeados restringiam-se a seis estados entre 2016 e 2019, o número saltou para 20 estados no período entre 2023 e 2026. A capilaridade do problema atinge diferentes regiões do país e envolve tanto facções tradicionais quanto quadrilhas especializadas.

O mapeamento identificou ocorrências ligadas a grandes organizações criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), além de milícias, grupos de extermínio, quadrilhas de roubo a banco e pistoleiros. Do total de 92 registros mapeados pelo instituto, o estado de São Paulo lidera a lista com 18 ocorrências, seguido pelo Espírito Santo, com 11 casos, e pelo Rio de Janeiro, que contabiliza 10 registros documentados.

Casos emblemáticos e investigações pelo país

O levantamento traz à tona episódios que ganharam repercussão nacional em investigações conduzidas pelas forças de segurança estaduais e federais. Entre os investigados está Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, apontado por investigadores como liderança do Comando Vermelho no interior paulista e que possuía certificados de registro de armas emitidos pelo Exército. Outro caso de destaque envolve Eduardo Bazzana, presidente do Clube Americanense de Tiro, preso em 2025 em uma operação conjunta no interior paulista e no Rio de Janeiro sob suspeita de fornecer armamento a facções fluminenses, cuja defesa nega as acusações.

As investigações também revelaram ramificações em diversas outras unidades federativas:

  • Na fronteira com o Paraguai, um integrante da cúpula do PCC possuía certificado de CAC e atuava no fornecimento de armas e drogas.
  • No Espírito Santo, operações policiais apontaram o uso de documentação falsa para a obtenção ilegal de registros de colecionador e fuzis.
  • Na Paraíba, a Operação Fake Shooter desarticulou integrantes de uma facção local que se passavam por atiradores para adquirir armamento.
  • No Rio de Janeiro, investigações atingiram milicianos ligados a redes criminosas que utilizavam a prerrogativa de CAC para abastecer o mercado ilegal.

Mudanças na legislação e fiscalização federal

A categoria dos CACs possui décadas de histórico no Brasil e permaneceu prevista na legislação mesmo após a sanção do Estatuto do Desarmamento, em 2003, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O cenário regulatório passou por transformações expressivas entre 2019 e 2022, período em que normas federais do governo do presidente Jair Bolsonaro ampliaram os limites quantitativos para a aquisição de armas e munições por parte desses atiradores.

Posteriormente, em 2023, parte dessas diretrizes normativas sofreu revisão com a retomada de limites mais restritos para a compra de armamentos de calibre permitido e restrito. Especialistas apontam que, além da flexibilização das regras anteriores, a fiscalização sobre o setor passou por transições institucionais, saindo formalmente da alçada direta do Exército para a competência da Polícia Federal, enquanto as polícias civis atuam nos crimes de tráfico e comércio ilegal.

Para continuar acompanhando desdobramentos de investigações, análises aprofundadas sobre segurança pública e coberturas jornalísticas baseadas em dados concretos, acesse diariamente o M1 Metrópole. O portal mantém o compromisso com a informação rigorosa, diversificada e contextualizada sobre os principais acontecimentos do país.

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