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Enchente no Túnel do Anhangabaú em SP: falha em protocolo preventivo revive drama de 1999

Enchente no Túnel do Anhangabaú em SP: falha em protocolo preventivo revive drama de 1999
1 de 5 Alagamento no túnel do Anhangabaú em 1999 (à esquerda) e em 2026 (à direita). — Foto: Reprodução/TV Globo

O Túnel do Vale do Anhangabaú, uma das vias mais importantes da região central de São Paulo, foi palco de um cenário caótico nesta quarta-feira (14), quando uma forte chuva transformou a passagem subterrânea em uma armadilha. O alagamento deixou 26 carros e dois ônibus submersos, revivendo o drama de uma enchente histórica ocorrida em março de 1999, que submergeu 160 veículos e levantou sérias questões sobre a eficácia dos protocolos de prevenção e drenagem da cidade.

O episódio atual reacende o debate sobre a segurança viária em períodos de chuva intensa e a aplicação de medidas preventivas. Apesar de um protocolo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de 2006 prever o bloqueio preventivo do túnel em caso de previsão de chuvas, a via no sentido Zona Norte não foi fechada antes da inundação, gerando indignação e prejuízos a motoristas e passageiros.

O Cenário da Recorrência: Anhangabaú Submerso Novamente

As imagens da inundação desta quarta-feira chocaram a população paulistana. Veículos boiando, carros batidos e sobrepostos, e pessoas desesperadas tentando escapar da água que subia rapidamente, conforme relatos. O motorista de aplicativo Maury Lucas, que estava no túnel com uma passageira, descreveu a velocidade com que a enxurrada avançou, desligando o motor de seu carro e prendendo-o na correnteza.

A situação de emergência foi agravada pela percepção de falta de ação preventiva. Maury Lucas afirmou ter visto um carro da CET no local, mas, em sua avaliação, não houve orientação para os motoristas ou bloqueio da entrada do túnel. “Quando começou tudo, em vez dos caras [agentes da CET] descerem e começarem a organizar para todo mundo conseguir voltar em segurança, ele simplesmente abandonou o carro deles lá, e saiu do túnel”, relatou o motorista, questionando a ausência de medidas que poderiam ter evitado o desastre.

Protocolo Ignorado e Alertas Ignorados

A recorrência de alagamentos no Túnel do Anhangabaú é um problema conhecido. Em 2006, a CET divulgou um protocolo detalhado para a Operação Chuvas, que estabelece medidas preventivas para reduzir riscos à circulação durante temporais. Especificamente para o Vale do Anhangabaú, o documento prevê a permanência de um operador de trânsito 24 horas por dia e a possibilidade de bloqueio de faixas ou fechamento total do túnel quando há informações sobre a chegada de chuvas.

Nesta quarta-feira, a Defesa Civil havia emitido dois alertas severos, e toda a capital entrou em estado de atenção para alagamentos às 15h25, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da prefeitura. Apesar dos avisos, a CET informou que as interdições começaram apenas às 15h38, sem explicar por que um dos sentidos da via permaneceu aberto, permitindo a entrada de veículos na passagem que viria a ser inundada.

Memória das Águas: O Precedente de 1999

O alagamento atual trouxe à tona a memória da devastadora enchente de 1º de março de 1999. Naquela ocasião, após dias de chuvas intensas, o Túnel do Anhangabaú ficou completamente submerso, com a água atingindo cerca de cinco metros de altura, até o teto da passagem. Cerca de 160 veículos, incluindo três ônibus, foram arrastados e submersos em menos de cinco minutos, conforme relatos de testemunhas e informações dos bombeiros da época.

Equipes do Corpo de Bombeiros realizaram buscas por possíveis vítimas de afogamento, embora não haja comprovação oficial de mortes naquele evento. O episódio de 1999 já demonstrava a vulnerabilidade da ligação subterrânea e a necessidade urgente de soluções de macrodrenagem. Em 2021, uma forte chuva também provocou o alagamento de uma das pistas do túnel, evidenciando que o problema persiste ao longo das décadas.

Desafios da Drenagem e Resposta Municipal

A Prefeitura de São Paulo informou que o túnel conta com seis bombas de drenagem, que funcionaram ininterruptamente durante o incidente, sem registro de falhas. No entanto, a capacidade de vazão do sistema se mostrou insuficiente para escoar o volume de água registrado. Um caminhão de bombeamento emergencial foi enviado para reforçar a retirada da água, e equipes de limpeza urbana atuaram nos trechos em que o nível já havia baixado.

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou, em publicação nas redes sociais, que equipes municipais foram mobilizadas para restabelecer a circulação, com trabalhos de limpeza, hidrojateamento e guinchos. Uma faixa da esquerda foi liberada por volta das 19h14. O Vale do Anhangabaú passou por diversas intervenções urbanísticas ao longo das décadas, como o projeto de reurbanização dos anos 1980 e a Operação Urbana Anhangabaú de 1991, que visavam, entre outros objetivos, solucionar as enchentes. Obras de recuperação e ampliação de galerias também foram realizadas em 2006 e 2007, com a meta de reduzir o volume de água que chegava ao córrego Anhangabaú.

Mais recentemente, o vale passou por uma nova requalificação urbana, iniciada em 2019, que, contudo, não se configurou como uma solução definitiva para os problemas de macrodrenagem. Em maio de 2026, a Prefeitura divulgou uma nova proposta de intervenção no sistema de drenagem da região da Avenida Nove de Julho, com o objetivo de mitigar os alagamentos no Centro, incluindo o Vale do Anhangabaú. A recorrência desses eventos sublinha a complexidade dos desafios de infraestrutura e planejamento urbano em uma metrópole como São Paulo, onde a segurança e a mobilidade dos cidadãos dependem diretamente da eficácia dessas soluções.

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