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Hantavírus: entenda a doença transmitida por roedores silvestres e seus riscos no Brasil

Carlos Aranguiz/Adobe Stock
Carlos Aranguiz/Adobe Stock

Um alerta de saúde global reacendeu as discussões sobre o hantavírus, uma zoonose que, apesar de ser mais conhecida em regiões rurais, ganhou destaque após um possível surto em um cruzeiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) investiga seis casos de adoecimento, incluindo três óbitos, que teriam ocorrido em uma embarcação que partiu da Argentina com destino a Cabo Verde. Até o momento, um caso foi confirmado, enquanto os outros cinco permanecem sob apuração, sublinhando a necessidade de atenção a esta enfermidade.

No Brasil, o cenário do hantavírus não é novo. Dados do Ministério da Saúde revelam que, entre 1993 e 2024, foram registrados 2.377 casos da doença, resultando em 540 óbitos. A maioria dessas ocorrências, cerca de 70%, concentra-se em áreas rurais, onde o contato humano com os roedores silvestres é mais frequente e inevitável.

Hantavírus no Brasil: dados e prevalência

A presença do hantavírus no território brasileiro é uma realidade há décadas, com números que reforçam a importância da vigilância e da prevenção. A doença, causada pelo gênero Orthohantavirus, é uma zoonose transmitida principalmente por roedores silvestres, popularmente conhecidos como “ratos do mato”. Diferentemente dos roedores urbanos – como ratazanas, ratos pretos e camundongos, mais associados à leptospirose – as mais de 200 espécies de roedores silvestres habitam ecossistemas naturais e rurais, explicando a maior incidência de casos nessas regiões.

A Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente tem monitorado de perto a distribuição geográfica e os padrões de ocorrência do hantavírus, buscando entender melhor os fatores que contribuem para sua disseminação. A vasta biodiversidade brasileira e a expansão de atividades humanas em áreas de mata e campo criam um ambiente propício para o encontro entre humanos e esses vetores.

Como ocorre a transmissão e quais os sintomas iniciais

A transmissão do hantavírus para humanos não se dá por meio de picadas diretas, mas sim pela inalação de aerossóis contaminados. O vírus é eliminado através da mordida, fezes e urina dos roedores infectados. Quando esses dejetos secam, partículas virais podem ser suspensas no ar, especialmente em ambientes fechados e pouco ventilados, como celeiros, galpões ou casas de campo que estiveram desocupadas.

O pneumologista Carlos Carvalho, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor da UTI Respiratória e da telemedicina do InCor, explica o mecanismo: “Se uma pessoa vai varrer o lugar e isso sobe como aerossóis, a pessoa pode inalar esse vírus e ele vai entrar nas vias respiratórias”. Essa via de contaminação torna a prevenção um desafio, exigindo cuidados específicos em ambientes onde a presença de roedores silvestres é conhecida ou suspeita.

A fase inicial da doença, que dura de três a cinco dias, pode ser facilmente confundida com um resfriado comum ou uma virose. Os sintomas incluem dor de cabeça, febre alta, dores no corpo (especialmente na região lombar) e sintomas gastrointestinais, como diarreia, náusea, vômito e dor abdominal. Essa inespecificidade dos sinais dificulta o diagnóstico precoce, crucial para um tratamento eficaz.

A Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus: progressão e gravidade

A forma mais comum de manifestação da doença nas Américas é a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), um quadro grave que pode evoluir rapidamente. Após a fase inicial, a doença pode progredir para a fase cardiopulmonar em um período de quatro a 24 horas, marcada pelo início de tosse e dificuldade respiratória. Essa progressão é alarmante e exige intervenção médica imediata.

Os sintomas avançados da SCPH incluem respiração acelerada, pressão baixa, edema pulmonar (acúmulo de líquido nos pulmões) e taquicardia. Além disso, um relatório de prevenção da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) de 2025, que identificou um aumento de casos no continente americano, aponta sintomas específicos da manifestação da síndrome na América do Sul, como manchas vermelhas na pele, sangue na urina e rubor facial.

“A infecção vai desde um extremo relativamente benigno até quadros graves de choque e insuficiência respiratória, precisando de UTI e suporte ventilatório”, afirma o Dr. Carvalho. A gravidade da doença pode variar consideravelmente entre os indivíduos, e ainda não se sabe ao certo o que determina se um paciente desenvolverá um quadro leve ou grave. Fatores como a genética do indivíduo e a carga viral inalada são hipóteses em estudo.

Fatores de risco e a importância da prevenção

A expansão urbana sobre áreas rurais e o desmatamento são fatores de risco significativos para o aumento dos casos de hantavírus. Essas atividades favorecem o contato entre humanos e os roedores silvestres, que perdem seus habitats naturais e buscam refúgio em construções humanas. Além disso, a limpeza de celeiros, estábulos ou outras áreas que possam estar infestadas por roedores, bem como ocupações agrícolas e de controle de pragas, aumentam a exposição ao vírus.

Atualmente, não existe uma vacina eficaz para os hantavírus nas Américas. Portanto, a prevenção é a principal ferramenta para evitar a infecção. Medidas como evitar o contato com roedores e seus dejetos, manter ambientes limpos e arejados, e utilizar equipamentos de proteção individual (máscaras e luvas) ao limpar locais potencialmente contaminados são essenciais. É fundamental também vedar frestas e buracos em residências rurais para impedir a entrada de roedores.

A conscientização sobre os riscos e a adoção de práticas preventivas são cruciais para mitigar a incidência do hantavírus, especialmente em regiões onde a doença é endêmica. A vigilância contínua e a informação são as melhores defesas contra esta ameaça à saúde pública.

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