A cena é comum, mas o impacto financeiro e operacional é frequentemente subestimado. Em São Paulo, chefs e empresários do setor de gastronomia têm se manifestado sobre uma prática incômoda e recorrente: os furtos em restaurantes por parte dos próprios clientes. O que muitos consideram uma “lembrancinha” inofensiva ou uma “brincadeira” tem se tornado um problema diário e crescente, afetando desde pequenos bares até estabelecimentos de alta gastronomia.
A denúncia da chef Renata Vanzetto, feita em vídeos nas redes sociais em maio, trouxe à tona a dimensão do problema. Com 11 estabelecimentos sob seu comando, Vanzetto relatou o sumiço de uma vasta gama de itens, incluindo talheres, pratos, livros, cinzeiros, porta-contas e até luminárias de mesa. O mais chocante, segundo ela, é que esses furtos ocorrem em locais de alto padrão, por clientes que chegam em carros luxuosos e pedem vinhos caros, desmistificando a ideia de que a prática estaria ligada à necessidade.
O impacto silencioso nas finanças dos restaurantes
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) confirma que, embora não haja estatísticas específicas, o problema dos furtos em restaurantes é uma “dor diária e crescente” para seus associados. Gabriel Pinheiro, líder executivo da Abrasel, explica que a popularização do que ele chama de “furto fofo” nas redes sociais, onde clientes exibem itens levados de restaurantes, contribuiu para o aumento dessas ocorrências, especialmente em casas focadas em coquetelaria e alta gastronomia.
O que para o cliente pode ser um mero souvenir, para o empresário representa um prejuízo significativo. As margens de lucro no setor de bares e restaurantes são historicamente estreitas, muitas vezes de um único dígito. Quando um item que custa R$ 40 ou R$ 60 desaparece, o custo de reposição pode facilmente consumir 100% do lucro gerado por aquela mesa inteira. “Ou seja, o empresário vendeu, atendeu bem, mas fechou a conta no prejuízo”, enfatiza Pinheiro, destacando a fragilidade econômica que essa prática impõe aos negócios.
De 10 mil guardanapos a saboneteiras: a diversidade dos itens furtados
A experiência de chefs renomados como Lisandro Lauretti, com três décadas no setor, ilustra a amplitude e a frequência desses furtos. Lauretti, que liderou a operação da primeira unidade brasileira do Jamie’s Italian em São Paulo, recorda o desaparecimento de um lote inteiro de 10 mil guardanapos de pano. Feitos sob encomenda e com identidade visual exclusiva, os itens sumiram gradualmente ao longo do primeiro ano de funcionamento do restaurante. Diante do prejuízo, a casa precisou abandonar o uso dos guardanapos personalizados.
Outros objetos também foram alvo. Conjuntos de saleiro e pimenteiro de madeira, avaliados em cerca de 60 euros cada, desapareceram em centenas de unidades. Para tentar conter as perdas, a equipe de Lauretti precisou adaptar a rotina de atendimento, instruindo os garçons a removerem os saleiros e pimenteiros da mesa antes da sobremesa. Até mesmo saboneteiras de inox, presas nas paredes dos banheiros, foram levadas, forçando a substituição por modelos menos atrativos.
A difícil abordagem e as estratégias de adaptação
Apesar da recorrência dos furtos, muitos estabelecimentos evitam registrar boletins de ocorrência. Lisandro Lauretti argumenta que a burocracia e a percepção de que a polícia não priorizaria casos de guardanapos ou talheres levam os empresários a buscar soluções internas. “Você vai chegar à delegacia por causa de um guardanapo, por causa de um talher, por causa de uma saboneteira? Não vai resolver”, comenta o chef, que prefere se adaptar, optando por itens menos desejados pelos clientes para uso doméstico.
Rafaella Wallner, sócia de um bar na Zona Sul de São Paulo há 20 anos, compartilha a mesma realidade. Seu estabelecimento já perdeu copos de formatos variados, canecas de cobre do famoso drink Moscow Mule, almofadas, mantinhas de inverno, cinzeiros, saleiros e até potinhos de água para pets. Em um caso notório, um balde de cerveja gigante foi levado, mesmo com o gerente presenciando a ação e o cliente negando o furto.
A estratégia mais comum é orientar a equipe a redobrar a atenção, mas sem acusações diretas ou revistas. “Mesmo a pessoa errada, ela não vai aceitar a abordagem numa boa”, explica Rafaella. Em situações muito evidentes, como um cliente saindo com uma manta, a abordagem é feita de forma cuidadosa, e o item é normalmente devolvido. Essa cautela visa evitar constrangimentos e manter a boa relação com a clientela, mesmo diante da conduta inadequada.
O comportamento do consumidor e o futuro do setor
A Abrasel aponta que a cultura das redes sociais, onde exibir um item levado do restaurante pode ser visto como uma “tendência” ou validação de ter estado em um “lugar da moda”, intensificou o problema. Essa percepção de que o furto é uma “brincadeira” ou uma “lembrancinha” desconsidera o impacto real para o negócio. Lisandro Lauretti diferencia esses casos de furtos com intenção deliberada de lesar, como o roubo de garrafas de vinho, que ele considera mais grave.
A questão dos furtos em restaurantes levanta um debate importante sobre a ética do consumidor e a sustentabilidade dos negócios no setor de serviços. Em um cenário econômico desafiador, cada perda, por menor que seja, soma-se a outros custos operacionais, dificultando a manutenção da qualidade e dos preços. A adaptação constante dos estabelecimentos, embora necessária, não resolve a raiz do problema, que reside na falta de consciência sobre o valor e o custo dos itens para os empresários.
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