PUBLICIDADE

Fome e humor: estudo revela que irritabilidade “hangry” depende da percepção consciente

Rudenko/Adobe Stock
Rudenko/Adobe Stock

A sensação de mau humor e irritabilidade que surge quando o estômago está vazio, popularmente conhecida pelo termo em inglês “hangry” (junção de hungry, faminto, e angry, bravo), é um fenômeno comum que a ciência tem buscado desvendar. Contudo, uma nova pesquisa publicada em fevereiro na prestigiada revista The Lancet eBioMedicine revela que essa resposta biológica é mais complexa do que se imaginava, não sendo ditada apenas pela queda dos níveis de glicose no sangue, mas sim pela percepção consciente de que se está com fome.

O estudo traz uma perspectiva inovadora ao indicar que a variação de humor não é uma consequência automática da baixa glicemia. Em vez disso, a glicose influencia as emoções de forma indireta, tendo o sentimento de fome como um mediador crucial. Isso significa que, sem a consciência de que a irritabilidade está ligada à necessidade de se alimentar, a queda de açúcar no sangue tem um impacto limitado sobre o estado emocional. Compreender essa dinâmica pode ser um passo importante para gerenciar melhor nosso bem-estar e as interações sociais.

A Complexidade da Fome e do Humor: Além da Glicose

A investigação, conduzida por pesquisadores internacionais, buscou diferenciar se as alterações de humor eram causadas diretamente pelos níveis de glicose ou pela interpretação subjetiva desse estado. Os resultados foram claros: em adultos, o estado de “hangry” é mais bem explicado pela percepção consciente da fome. Essa descoberta, conforme explica o neurocientista Nils Kroemer, autor correspondente do artigo, à Agência Einstein, ajuda a contextualizar as conhecidas crises de irritabilidade em crianças pequenas.

Kroemer destaca que a capacidade de atribuir a irritabilidade a um sinal metabólico é uma ferramenta de regulação emocional que aprimoramos ao longo do crescimento. Essa habilidade, que parece inata, é na verdade desenvolvida. No entanto, é importante ressaltar que, por se tratar de um estudo observacional com adultos saudáveis, as hipóteses ainda demandam validação em grupos maiores e em pacientes com condições como obesidade ou transtornos alimentares. A endocrinologista Cynthia Valerio, diretora da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), enfatiza que esta é uma prova de conceito interessante para gerar futuras hipóteses, mas que precisa de mais estudos para ser totalmente confirmada em contextos clínicos.

Interocepção: A Chave para Entender a Conexão Mente-Corpo

Um conceito central introduzido pelo estudo é a “interocepção”, definida como a capacidade do sistema nervoso de sentir e interpretar os sinais internos do organismo. A pesquisa demonstrou que indivíduos com maior precisão interoceptiva — ou seja, aqueles que conseguem “escutar” melhor o próprio corpo e identificar suas necessidades — apresentam menor oscilação emocional. Essa consciência corporal funciona como um mecanismo de controle e proteção.

“Se entendemos que uma piora em nosso humor é motivada pela fome, podemos simplesmente comer algo e o humor melhorará”, afirma Kroemer. O perigo reside na desconexão. Quando o indivíduo não consegue identificar a origem do desconforto, o cérebro pode atribuir o mal-estar a causas externas, o que pode levar a conflitos interpessoais desnecessários ou a uma angústia sem motivo aparente. O médico nutrólogo Diogo Toledo, do Einstein Hospital Israelita, resume essa ideia: “O que esse estudo confirmou é algo que a prática clínica já sinalizava há tempos: a fome não é só um número na glicemia. Ela é uma experiência construída pelo cérebro a partir de vários sinais ao mesmo tempo.”

Estratégias Práticas para Gerenciar a Fome e o Bem-Estar

Diante da complexidade da fome e sua relação com o humor, algumas atitudes podem ser adotadas para aprimorar a capacidade de “escutar” o próprio corpo. Uma das primeiras é aprender a diferenciar os tipos de fome. Toledo explica que a fome física surge gradualmente e aceita qualquer tipo de alimento, enquanto a fome emocional aparece de repente e geralmente exige algo muito específico e palatável, como doces ou salgadinhos, buscando um conforto imediato.

Outras ferramentas eficazes incluem o diário alimentar, onde o paciente registra seu estado emocional antes de comer e o nível de fome em uma escala de zero a dez, e a prática da atenção plena durante as refeições. Comer sem distrações como telas, mastigar devagar e prestar atenção à progressão da saciedade são exercícios simples que, com regularidade, podem melhorar significativamente a forma como o cérebro interpreta os sinais metabólicos, promovendo um maior controle sobre as emoções ligadas à alimentação.

Fatores Adicionais: Obesidade e Influências Hormonais na Fome

A pesquisa também trouxe à tona a relação entre o índice de massa corporal (IMC) e a interocepção. Indivíduos com IMC mais alto, classificados como pessoas com sobrepeso ou obesidade, tendem a apresentar uma precisão interoceptiva reduzida. “O paciente com obesidade frequentemente não sabe dizer se está com fome ou não. Come porque é hora de comer, porque o alimento está na frente, porque os outros estão comendo. Os sinais internos foram ficando cada vez mais difíceis de ouvir”, detalha o nutrólogo Diogo Toledo.

Essa desconexão possui uma base biológica. O excesso de gordura visceral, comum em casos de obesidade, gera um estado inflamatório que interfere nos circuitos cerebrais de regulação do apetite, como a resistência à leptina, o hormônio da saciedade. Reverter esse quadro é um processo que demanda tempo e uma abordagem que vai além da simples prescrição alimentar. Além disso, a associação entre estado metabólico e humor mostrou-se mais forte entre as mulheres, um fator atribuído à fisiologia hormonal. As variações de estrogênio e progesterona ao longo do ciclo menstrual afetam diretamente a sensibilidade à insulina e o apetite, tornando o planejamento alimentar um elemento crucial para a estabilidade emocional feminina.

Mantendo a Estabilidade Glicêmica para um Humor Equilibrado

Para evitar que a necessidade de comer se transforme em episódios de irritabilidade ou até mesmo compulsão, a chave reside na busca pela estabilidade glicêmica. Embora o estudo não detalhe as estratégias específicas para alcançá-la, a compreensão de que a percepção consciente da fome é fundamental já oferece um caminho para a autorregulação. Manter um padrão alimentar equilibrado, com refeições regulares e ricas em nutrientes, pode contribuir para que os níveis de glicose se mantenham estáveis, minimizando os picos e quedas que podem desencadear o “hangry”.

Aprofundar-se no conhecimento sobre como nosso corpo funciona e como nossos hábitos alimentares impactam o humor é essencial para uma vida mais saudável e equilibrada. Para continuar acompanhando as últimas notícias e análises sobre saúde, bem-estar, ciência e diversos outros temas relevantes, acesse o M1 Metrópole. Nosso compromisso é oferecer informação de qualidade, contextualizada e que faça a diferença no seu dia a dia.

Leia mais

PUBLICIDADE