Um novo livro-reportagem lança luz sobre um dos períodos mais sombrios da história brasileira, revelando um esquema de financiamento secreto que teria envolvido a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e empresários americanos para apoiar a ditadura militar. A obra, intitulada “Olhares Ianques: A Ditadura Brasileira nos Arquivos Norte-Americanos”, do historiador e professor de Relações Internacionais da USP, Felipe Loureiro, detalha como recursos foram direcionados para fortalecer a repressão, incluindo a construção de uma sala de tortura em São Paulo.
A revelação central do livro descreve uma reunião secreta ocorrida em novembro de 1971. Na ocasião, o general Humberto Sousa Melo, então chefe do 2º Exército em São Paulo, teria lido uma carta do ditador Emílio Garrastazu Médici, solicitando apoio financeiro. O objetivo explícito era a construção de uma sala de tortura na capital paulista, nos moldes do temido Doi-Codi do Rio de Janeiro, além da aquisição de veículos e armamentos para o regime.
O esquema revelado em “Olhares Ianques”
A reunião, convocada pela Fiesp, contou com a presença de figuras proeminentes da oligarquia paulistana e um representante do empresariado americano: Thomas Romanach, presidente da General Electric. Segundo os documentos analisados por Loureiro, o grupo teria contribuído financeiramente, com cada empresa aportando “algumas centenas a alguns milhares de dólares”. Para mascarar a origem e o destino desses recursos, foi criado um “fundo educacional” por meio da Fiesp, com emissão de recibos. Essa manobra permitiu que as empresas, incluindo as americanas, registrassem os gastos e evitassem a prática de caixa dois, dando uma fachada de legalidade a um financiamento ilícito.
A pesquisa de Felipe Loureiro é fruto de uma década e meia de dedicação a documentos oficiais dos Estados Unidos que abordavam o regime militar brasileiro. O historiador buscou oferecer uma perspectiva matizada das relações entre Brasil e Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970, desafiando reducionismos e aprofundando a compreensão sobre o papel de cada nação e de seus atores internos.
O contexto da repressão e o papel empresarial
O período de 1971 foi marcado pelos “anos de chumbo”, um dos momentos mais brutais da ditadura militar brasileira, com a intensificação da repressão política, prisões arbitrárias, tortura e assassinatos de opositores. O Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) era um dos principais centros de repressão, conhecido por suas práticas de tortura e desrespeito aos direitos humanos. Nesse cenário, o financiamento privado de estruturas repressivas, como uma nova sala de tortura, evidencia o profundo envolvimento de setores da sociedade civil e empresarial com a manutenção do regime autoritário.
A Fiesp, uma das mais influentes entidades de classe do país, teve um papel complexo durante a ditadura. Embora a nota oficial da federação hoje reforce seu “compromisso inabalável com o Estado Democrático de Direito e a transparência”, as revelações do livro de Loureiro sugerem um envolvimento direto em ações que minavam a democracia e apoiavam a repressão. O fato de “supostos fatos ocorreram há mais de 50 anos”, como destacado pela Fiesp, não diminui a importância histórica da apuração e do debate sobre a responsabilidade de instituições e indivíduos na sustentação de regimes antidemocráticos.
A visão americana e a capilaridade informacional
Entre as teses centrais da obra de Loureiro, destacam-se a ideia de que os Estados Unidos tiveram um papel crucial no golpe de 1964, mas uma influência menos determinante na estruturação do regime subsequente. Contudo, o livro revela que os EUA possuíam um acesso surpreendente a informações sobre o que ocorria no Brasil, com informantes em diversos segmentos da sociedade, desde a elite econômica e política até jornalistas influentes. Essa “capilaridade informacional” chocou o próprio autor, que ressalta a capacidade da representação diplomática americana de se comunicar com quem quisesse.
A pesquisa de Loureiro se beneficiou da abertura de arquivos a partir dos anos 2010, impulsionada pelos esforços da Comissão Nacional da Verdade (CNV). A CNV, criada em 2011, teve como objetivo investigar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, contribuindo significativamente para a recuperação da memória e da verdade sobre o período da ditadura. Para mais informações sobre a ditadura militar no Brasil, clique aqui.
Repercussão e o posicionamento da Fiesp
As revelações do livro reacendem o debate sobre a responsabilidade histórica de instituições e indivíduos no apoio à ditadura. A nota da Fiesp, que reafirma seu compromisso com a democracia, é um reflexo da necessidade de as entidades se posicionarem diante de seu passado. A discussão sobre o financiamento de regimes autoritários por setores empresariais é fundamental para a construção de uma memória coletiva mais completa e para o fortalecimento das instituições democráticas no presente.
Compreender esses episódios históricos não é apenas revisitar o passado, mas também extrair lições valiosas para o futuro, garantindo que tais violações não se repitam e que a sociedade esteja atenta aos mecanismos que podem minar a democracia. A obra de Loureiro contribui para essa reflexão, mostrando a complexidade das relações de poder e os interesses envolvidos na sustentação de um regime de exceção.
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