Uma situação inusitada e frustrante chamou a atenção de passageiros da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) em São Paulo. Uma estudante universitária, ao adquirir um pacote de figurinhas supostamente da Copa do Mundo de 2026 de um vendedor ambulante, deparou-se com um card do jogador Neymar da edição de 2022. O incidente, ocorrido na última terça-feira (30), na Linha 11-Coral, expõe a persistência do comércio de produtos falsificados em transportes públicos e o desafio enfrentado por consumidores e autoridades.
A experiência da passageira Rayssa Montoro, que desconfiava da autenticidade do produto, mas decidiu comprá-lo para “fazer uma brincadeira com os amigos”, serve como um alerta sobre a sofisticação das fraudes. O vendedor, operando dentro do trem, garantia a originalidade das figurinhas e até incentivava os compradores a escanear um QR Code na embalagem, que, de fato, direcionava ao site oficial da Panini, a fabricante legítima. Contudo, a tática visava apenas a enganar, já que a qualidade do material e o conteúdo do pacote revelaram a farsa.
A tática do vendedor e a decepção dos colecionadores de figurinhas falsas
Rayssa Montoro relatou ao g1 que a diferença no material da embalagem era perceptível ao toque, um indício claro de falsificação para quem já está familiarizado com os produtos oficiais. Ao abrir o pacote, a estudante confirmou suas suspeitas: a impressão e as cores das figurinhas eram de baixa qualidade, e o card de Neymar era da coleção anterior, de 2022, e não da suposta edição de 2026.
O caso de Rayssa não foi isolado. Outro passageiro, que comprou cerca de 30 pacotes para o filho, também foi vítima do golpe. A decepção foi evidente quando ele percebeu que havia sido enganado. “Deu para ver que ele ficou muito chateado. Fiquei pensando que ele queria levar alegria para o filho e acabou sendo enganado”, contou a estudante. Estima-se que o ambulante tenha vendido aproximadamente 60 pacotes em apenas cinco minutos dentro do vagão, antes de se deslocar para outros carros do trem, evidenciando a agilidade e o volume do comércio ilegal.
O fenômeno das figurinhas da Copa e a exploração da paixão
A cada quatro anos, a Copa do Mundo de futebol mobiliza milhões de torcedores em todo o planeta, e no Brasil, a paixão pelo esporte se traduz também na febre dos álbuns de figurinhas. Colecionar, trocar e completar o álbum se tornou um ritual que transcende gerações, criando um mercado aquecido e, infelizmente, atrativo para a pirataria. A venda de produtos falsificados, como as figurinhas falsas, não apenas lesa o consumidor, que paga por algo que não corresponde ao original, mas também prejudica a indústria legítima e a economia formal.
A Panini, empresa responsável pela produção dos álbuns e figurinhas da Copa, investe em tecnologia e segurança para garantir a autenticidade de seus produtos. Após a convocação oficial das seleções, por exemplo, a empresa lança kits de atualização com novos jogadores, como ocorreu na edição de 2022, que incluiu 120 novas figurinhas, com destaque para nomes como Neymar, Neuer e Cubarsí. A existência de cards de edições anteriores em pacotes vendidos como novos é uma das provas mais contundentes da falsificação.
Ações de combate à pirataria e o desafio da fiscalização
O comércio ambulante irregular, como o presenciado na CPTM, é proibido por lei, conforme o Decreto Federal nº 1.832/1996. A CPTM, por sua vez, afirma realizar ações permanentes para combater essa prática, com rondas de agentes de segurança e atendimento a denúncias de passageiros. Entre janeiro e maio deste ano, a companhia abordou 937 ambulantes e apreendeu 43.235 mercadorias irregulares. Embora represente uma redução de 31,7% em relação ao mesmo período de 2025, quando 58.850 itens foram apreendidos, os números ainda são expressivos e demonstram a escala do problema.
As autoridades policiais também intensificam o combate à pirataria. Recentemente, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) realizou uma operação nos bairros do Brás e do Canindé, na região central de São Paulo, resultando na apreensão de cerca de 50 mil figurinhas e mil álbuns falsificados da Copa do Mundo de 2026. Quatro pessoas foram indiciadas por crime contra a propriedade industrial, evidenciando a seriedade da infração. A Polícia Civil alerta que a fiscalização é crucial, especialmente em períodos de grande demanda por artigos esportivos, como a Copa do Mundo.
Como identificar e se proteger de produtos falsificados
Para evitar ser vítima de golpes com figurinhas falsas e outros produtos piratas, é fundamental que o consumidor esteja atento a alguns detalhes:
- Qualidade do material: Produtos originais geralmente apresentam melhor acabamento, papel de maior gramatura e cores mais vibrantes.
- Preço: Desconfie de ofertas muito abaixo do valor de mercado. Embora os pacotes falsos possam ter o mesmo preço dos originais, como no caso da CPTM, preços muito baixos são um forte indicativo de falsificação.
- Local de compra: Prefira adquirir produtos em lojas oficiais, bancas de jornal ou grandes varejistas. O comércio ambulante, especialmente em locais não fiscalizados, é um ambiente propício para a pirataria.
- Detalhes da embalagem: Verifique a qualidade da impressão do pacote, o selo de autenticidade (se houver) e a clareza das informações.
- QR Code: Embora o QR Code possa direcionar para o site oficial, como no caso relatado, ele não garante a autenticidade do produto em si. É uma tática comum de falsificadores.
A conscientização é a melhor ferramenta contra a pirataria. Ao optar por produtos originais, o consumidor não apenas garante a qualidade e a experiência completa da coleção, mas também apoia a indústria legal e contribui para o combate a crimes associados, como contrabando e receptação. A paixão pela Copa do Mundo merece ser celebrada com a autenticidade que ela representa.
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