O avanço da tecnologia, embora traga inegáveis benefícios, também abre portas para novas e preocupantes formas de violência. Em São Paulo, uma prática alarmante tem ganhado destaque: o uso de pequenos dispositivos de rastreamento, popularmente conhecidos como “tags”, escondidos em objetos pessoais para monitorar e perseguir mulheres. Essa tática, que transforma ferramentas de localização em instrumentos de controle e ameaça, acende um alerta sobre a segurança digital e a persistência da violência de gênero no ambiente urbano. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado já confirmou que tal conduta se configura como crime de perseguição, ou stalking, conforme a legislação brasileira.
A situação expõe uma faceta sombria da tecnologia, onde a facilidade de acesso a gadgets de baixo custo pode ser pervertida para fins criminosos, minando a privacidade e a liberdade das vítimas. A repercussão desses casos tem mobilizado autoridades e especialistas, que buscam formas de combater essa nova modalidade de assédio e garantir a proteção das mulheres.
A Tática Invisível da Perseguição Digital
A reportagem da “Folha de S.Paulo” revelou a dimensão dessa nova modalidade de perseguição. Homens têm ocultado essas tags em locais como carros, bolsas, mochilas e até mesmo em pertences de crianças, transformando a rotina das vítimas em um mapa de monitoramento em tempo real. Os dispositivos, que custam menos de R$ 100 e são do tamanho de uma moeda, operam de forma discreta, permitindo que o agressor acompanhe cada passo da mulher sem que ela perceba a vigilância constante.
Essa invasão de privacidade não apenas restringe a liberdade da vítima, mas também gera um profundo sentimento de insegurança e medo, elementos centrais na caracterização do crime de perseguição. A facilidade de aquisição e a discrição desses aparelhos tornam a detecção um desafio, exigindo maior atenção e conscientização por parte das potenciais vítimas e das autoridades.
O Enquadramento Legal da Perseguição (Stalking) no Brasil
A legislação brasileira, atenta à evolução das formas de violência, incluiu o crime de perseguição, ou stalking, no Código Penal em 2021, por meio do Artigo 147-A. A lei define o stalking como a prática de perseguir alguém de forma reiterada, ameaçando sua integridade física ou psicológica, restringindo sua liberdade ou invadindo sua privacidade. A pena para esse crime é de seis meses a dois anos de prisão, além de multa, podendo ser agravada em diversas circunstâncias, como quando a vítima é mulher.
A confirmação da SSP de que o uso desses dispositivos de rastreamento se enquadra nessa tipificação penal reforça a seriedade com que as autoridades tratam a questão e oferece um respaldo legal crucial para as vítimas. Essa tipificação é um avanço importante, pois reconhece a gravidade de condutas que, antes, poderiam ser subestimadas ou enquadradas em delitos menores, sem a devida punição para a persistência e o impacto psicológico da perseguição.
Aumento dos Registros e Respostas da Segurança Pública
Embora não existam estatísticas oficiais que detalhem especificamente o uso de tags para stalking, os casos são registrados na categoria geral de perseguição. A 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), localizada no Cambuci, região central de São Paulo, registrou um aumento nos casos de perseguição no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025 – um dado que, apesar de incomum na referência temporal, sinaliza uma tendência de alta na notificação desse tipo de crime. Diante desse cenário, a SSP tem intensificado suas ações. A gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou acompanhar permanentemente os registros de perseguição e demais crimes relacionados à violência contra a mulher.
A rede de proteção em São Paulo inclui 144 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) e 220 salas DDM, além da Cabine Lilás, uma estrutura de atendimento no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) que já realizou mais de 29,6 mil atendimentos até maio deste ano. No campo tecnológico, o aplicativo SP Mulher Segura se destaca, com mais de 61 mil usuárias ativas e mais de 16,6 mil acionamentos do botão do pânico. A plataforma oferece ferramentas de geolocalização e monitoramento de agressores que utilizam tornozeleira eletrônica, uma medida que já acompanha 434 pessoas, sendo 221 por casos de violência doméstica. Desde a implantação do monitoramento eletrônico, 136 pessoas foram presas por descumprimento de medidas protetivas, evidenciando a importância dessas ferramentas na proteção das vítimas. Para mais informações sobre as ações da SSP, você pode consultar o site oficial da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.
O Impacto Psicológico e a Necessidade de Denúncia
A perseguição, especialmente quando envolve o monitoramento invisível, causa um impacto psicológico devastador nas vítimas. A sensação de estar constantemente vigiada, sem saber quando ou onde o agressor pode aparecer, gera ansiedade, estresse e uma profunda quebra de confiança. Muitas mulheres relatam mudanças drásticas em suas rotinas, isolamento social e até mesmo problemas de saúde mental decorrentes do medo constante. É fundamental que as vítimas se sintam seguras para denunciar.
A denúncia é o primeiro passo para romper o ciclo de violência e permitir que as autoridades atuem na proteção e responsabilização dos agressores. A conscientização sobre os sinais de stalking e a existência de ferramentas de apoio são cruciais para encorajar as mulheres a buscar ajuda. A sociedade precisa estar atenta e solidária, oferecendo suporte e não minimizando a gravidade de tais atos.
A luta contra a perseguição e a violência de gênero é contínua e exige a atenção de toda a sociedade. Manter-se informado sobre as novas táticas de agressão e as ferramentas de proteção disponíveis é essencial. Para acompanhar as últimas notícias, análises aprofundadas e reportagens que impactam o seu dia a dia, continue acessando o M1 Metrópole, seu portal de informação relevante, atual e contextualizada. Nosso compromisso é com a verdade e a qualidade da informação, para que você esteja sempre um passo à frente.