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Estudo da USP reforça impacto de asteroide na formação da Cratera de Colônia em São Paulo

Estudo da USP reforça impacto de asteroide na formação da Cratera de Colônia em São Paulo
Bairro Vargem Grande se desenvolveu na área da cratera de Colônia Ricardo Reichhardt/TV Globo

Uma nova e significativa descoberta, realizada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em colaboração com o Instituto de Pesquisas Ambientais, trouxe evidências mineralógicas que reforçam a teoria de que a Cratera de Colônia, localizada em Parelheiros, na Zona Sul da capital paulista, foi formada pelo impacto de um asteroide com a Terra. A pesquisa, que identificou grãos de zircão com marcas de metamorfismo de choque, solidifica a compreensão sobre a origem dessa notável formação geológica.

A Cratera de Colônia, uma depressão circular de 3,6 quilômetros de diâmetro, foi inicialmente identificada nos anos 1960 por meio de imagens aéreas. Situada em uma área de relevante patrimônio ambiental, a formação foi tombada pelo Condephaat em 2003 e posteriormente declarada Monumento Geológico em 2009. Até então, a natureza exata do corpo celeste – meteoro, cometa ou asteroide – que causou o impacto permanecia uma questão em aberto, agora mais claramente direcionada pelo novo estudo.

A Descoberta Científica e Suas Provas

Pela primeira vez, os cientistas identificaram grãos de zircão, um mineral conhecido por sua extrema resistência e capacidade de preservar registros de eventos geológicos extremos, com sinais de metamorfismo de choque. Este tipo de deformação é causado por pressões elevadíssimas, compatíveis com a energia liberada pelo impacto de um asteroide. A descoberta, publicada em abril na prestigiada revista científica Earth and Planetary Science e divulgada pelo Jornal da USP na quinta-feira (7), é um marco para a geologia brasileira.

O artigo é assinado por uma equipe multidisciplinar: Victor Velázquez Fernandez e Rodrigo Ferreira Lucena, ambos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, e José Maria Azevedo Sobrinho, Alethéa Ernandes Martins Sallun e William Sallun Filho, do Instituto de Pesquisas Ambientais. Eles analisaram amostras coletadas em diferentes níveis de profundidade, obtidas durante sondagens realizadas pela Sabesp para a implantação de um poço artesiano destinado ao abastecimento da comunidade local.

O metamorfismo de choque ocorre quando uma rocha ou mineral é submetido a uma pressão súbita e intensa, como a gerada pela colisão de um asteroide. Esse processo altera a estrutura interna dos minerais, deixando marcas microscópicas. Entre as deformações encontradas nos grãos de zircão, destacam-se as planar deformation features (PDFs), pequenas linhas com cerca de um micrômetro de largura que atravessam o interior dos minerais, atuando como uma “impressão digital” de impactos extraterrestres, conforme explicou Victor Velázquez Fernandez ao Jornal da USP.

O Método da Análise e a Importância do Zircão

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores trabalharam com 200 lâminas delgadas de rocha, das quais selecionaram 40 grãos de zircão, cada um com aproximadamente 50 micrômetros de comprimento (equivalente a 0,05 milímetros). A análise detalhada foi feita com luz polarizada em alta resolução, revelando uma série de deformações internas nos cristais.

Entre as alterações observadas estavam a recristalização, que é a reorganização da estrutura interna do mineral; a desorientação cristalográfica, uma mudança na orientação das partes internas do cristal; a perturbação das zonas de crescimento, alterando as camadas formadas durante o desenvolvimento do mineral; as já mencionadas feições planares de deformação (PDFs); e texturas granulares, ligadas à fragmentação e reorganização interna do cristal. Essas marcas microscópicas são cruciais para os cientistas reconstruírem a sequência de eventos geológicos após o impacto.

A escolha do zircão não é aleatória. Este mineral é amplamente utilizado em estudos geológicos devido à sua notável resistência ao tempo, ao calor e a alterações químicas. Essa durabilidade permite que o zircão preserve sinais de eventos muito antigos, mesmo em contextos onde outras evidências mais visíveis já foram apagadas pela erosão ou por outras transformações geológicas. Isso o torna um “arquivo” natural indispensável para investigar crateras antigas ou desgastadas, como a de Colônia.

A Cratera de Colônia: História e Contexto Urbano

Embora a Cratera de Colônia já fosse considerada uma estrutura de impacto em estudos anteriores, o novo trabalho adiciona uma evidência mineralógica direta e detalhada que fortalece essa interpretação. Pesquisas prévias já haviam identificado outros indicadores de impacto, como deformações em quartzo e mica, além de esférulas e rochas específicas. Com os resultados recentes, as explicações alternativas, como deformação tectônica regional ou metamorfismo comum, perdem força, consolidando a origem por impacto de asteroide.

O que torna a Cratera de Colônia ainda mais singular é o fato de que um bairro inteiro, o Vargem Grande, no extremo sul de São Paulo, se desenvolveu dentro de seus limites. Cerca de 60 mil pessoas vivem nesta área. Ao se aproximar de Vargem Grande, a paisagem se transforma drasticamente em comparação com o centro da capital, oferecendo uma sensação de distanciamento, com menos trânsito e abundante vegetação. Placas indicativas sobre a cratera e seus mirantes são comuns, convidando à exploração.

Vida na Cratera: Orgulho e Desafios de Vargem Grande

A vida dentro de uma cratera de asteroide é um aspecto que gera curiosidade e orgulho entre os moradores. Ozéias de Freitas Ramos, que reside na Cratera de Colônia desde os anos 80 e é artista visual, relata que a notícia da origem da cratera nos anos 90 surpreendeu a todos. “Todo mundo ficou espantado com a notícia. Mas depois se acostumaram e hoje em dia as pessoas têm até certo orgulho de morar em uma das duas únicas crateras habitadas no mundo”, conta Ozéias, que acompanhou de perto o crescimento do bairro.

Márcia Maria Ferreira Ribeiro, dona de casa, compartilha a emoção de viver em um local com uma história tão peculiar. “Quando Vargem Grande foi loteado, eu cheguei a ir lá para conhecer o bairro. Não tinha nem casa e iam separar terrenos para as pessoas. Na época, eu vi direitinho o formato da cratera. Acho essa história emocionante, né. Um meteoro caiu próximo da minha casa. É legal”, afirma. O vendedor Natailson de Souza complementa, dizendo que essa história “enriquece a região” e é um tema de interesse nas escolas locais.

Apesar do orgulho, Vargem Grande, como bairro periférico, enfrenta desafios. A reportagem do g1, que esteve no local em 2024, observou que o bairro é predominantemente residencial, com casas em meio a subidas e descidas. Há apenas três escolas (duas estaduais e uma municipal de ensino fundamental) e o sinal de telefonia móvel é precário. Além disso, a Penitenciária Joaquim Fonseca Lopes, inaugurada em 2009 em uma área de 8 mil metros quadrados, abriga uma população carcerária de 1451 detentos em regime fechado, adicionando outra camada à complexidade social da região.

Ozéias de Freitas Ramos destaca que, após anos focados na infraestrutura básica, a comunidade agora busca melhorias nas áreas ambiental e cultural. “Tem pouquíssimos dispositivos de cultura. Esses são pontos que são importantes para transformar o bairro melhor do que é hoje”, ressalta o morador, apontando para a necessidade de um desenvolvimento mais abrangente para Vargem Grande. O nome “Cratera de Colônia”, segundo o geógrafo Rodrigo Martins, surgiu quando o local começou a ser estudado por pesquisadores, consolidando sua identidade.

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Fonte: g1

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