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A ciência por trás do câncer: Maria Paula Curado discute epidemiologia e humanização

Reprodução/TV Folha
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A trajetória da epidemiologia no combate ao câncer

No terceiro episódio do programa Desenquadrando, o economista Marcos Lisboa promoveu um diálogo essencial sobre os desafios do tratamento e da prevenção do câncer no Brasil. A convidada, Maria Paula Curado, uma das maiores referências na área, trouxe uma perspectiva que une dados estatísticos rigorosos a uma visão profundamente humanizada do atendimento médico.

Curado, que atualmente lidera a divisão de epidemiologia e estatística no A.C.Camargo Cancer Center e leciona na UFG e na USP, possui um histórico de atuação global, tendo chefiado a área de epidemiologia descritiva da IARC, agência vinculada à OMS. Sua transição da prática cirúrgica para a pesquisa epidemiológica foi motivada por uma inquietação clínica: a percepção de que, nos anos 1980, cirurgias complexas de cabeça e pescoço muitas vezes não impediam o retorno da doença em curto prazo.

Dados como ferramenta de transformação

Foi a partir dessa frustração profissional em Goiânia que a pesquisadora começou a estruturar bases de dados locais, buscando compreender a real incidência da doença. Esse movimento foi o embrião de sua carreira na epidemiologia, campo que hoje é fundamental para desenhar políticas públicas de saúde e entender a dinâmica de diferentes tipos de tumores.

Durante a entrevista, o debate avançou sobre a epidemiologia do câncer no Brasil, destacando a alta incidência de tumores de boca e a mudança no cenário global do câncer gástrico. Embora este último apresente uma queda na incidência mundial, a pesquisadora ressaltou que a taxa de mortalidade permanece preocupante, exigindo atenção contínua dos sistemas de saúde.

A necessidade de uma medicina mais humana

Um dos momentos mais marcantes da conversa foi quando Curado compartilhou sua experiência como paciente. Ao vivenciar o tratamento do outro lado da mesa, ela constatou falhas críticas na comunicação médica. Segundo a especialista, o modelo tradicional de ensino nas universidades ainda perpetua uma relação de poder desequilibrada, onde o médico é visto como uma figura infalível, ignorando a subjetividade do paciente.

“O médico é Deus, o paciente vai ser salvo por aquele Deus que sabe tudo. Tem que parar de ser subserviente, tem que ser uma relação menos ditatorial”, afirmou Curado. Ela defende que o paciente deve ter autonomia para participar das decisões sobre seu próprio tratamento, sendo devidamente informado e ouvido em suas angústias e necessidades.

Prevenção e o futuro dos dados médicos

Para além do tratamento, a pesquisadora reforçou que a prevenção ainda passa pelo básico, muitas vezes negligenciado. “É o feijão com arroz mesmo. E socializar, ter amigos”, pontuou, destacando a importância de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática de exercícios físicos. A dimensão social, segundo ela, é um fator de proteção que não deve ser subestimado.

O episódio também abordou a infraestrutura de dados do país. Curado reconheceu a relevância dos Registros Hospitalares de Câncer, que são obrigatórios em unidades públicas, mas não deixou de apontar as lacunas que ainda impedem uma gestão mais eficiente da saúde oncológica no Brasil. O programa Desenquadrando, que conta com oito episódios, segue disponível no canal da TV Folha no YouTube, oferecendo uma análise aprofundada sobre temas que impactam diretamente a sociedade e a economia.

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