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Análise da Unicamp revela tirzepatida em canetas emagrecedoras do Paraguai, mas alerta para riscos

Rubens Cavallari/Folhapress
Rubens Cavallari/Folhapress

A busca por soluções para o emagrecimento tem impulsionado um mercado paralelo de medicamentos, e uma recente análise da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) trouxe à tona um dado relevante: canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai e comercializadas ilegalmente no Brasil contêm, de fato, a tirzepatida, o mesmo princípio ativo do popular Mounjaro. O estudo, realizado a pedido da Folha, confirmou a presença da substância em diversas amostras, mas os resultados vêm acompanhados de um sério alerta sobre a segurança e a eficácia desses produtos não regulamentados, conforme divulgado em 4 de julho de 2026.

Este cenário complexo expõe os consumidores a produtos de origem duvidosa, mesmo que contenham o princípio ativo desejado, levantando questões cruciais sobre a saúde pública e a fiscalização de medicamentos em um mercado globalizado e impulsionado pelas redes sociais.

A análise da Unicamp e a confirmação da tirzepatida

Pesquisadores do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp analisaram amostras de cinco medicamentos paraguaios: Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex, produzidos por laboratórios como Catedral, Indufar, Eticos, Quimfa e Lasca. O objetivo era verificar a presença, a concentração e a estrutura molecular da tirzepatida, um agonista de GLP-1 e GIP que tem se mostrado eficaz no tratamento do diabetes tipo 2 e na perda de peso.

A análise confirmou que todas as amostras continham a tirzepatida e, de forma importante, não apresentavam mistura com semaglutida, o princípio ativo de outros emagrecedores conhecidos como Ozempic e Wegovy. As amostras foram adquiridas entre os dias 13 e 15 de maio por meio de vendedores que utilizam plataformas como TikTok, Instagram e WhatsApp para divulgar e negociar os produtos. Em 1º de junho, foram encaminhadas ao CIATox, juntamente com amostras de Mounjaro e Ozempic para fins de comparação e controle.

É crucial ressaltar, contudo, que a pesquisa da Unicamp se limitou à identificação do princípio ativo e sua concentração, não avaliando a presença de impurezas, contaminantes ou, mais importante, a real eficácia e segurança desses medicamentos para o consumo humano.

Alertas de segurança: o que a presença do ativo não garante

Apesar da confirmação do princípio ativo, a presença de tirzepatida não garante que os produtos paraguaios sejam seguros ou equivalentes ao Mounjaro original. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, emitiu um comunicado reforçando que a identificação de um componente não substitui os rigorosos controles de produção, pureza e reatividade do organismo. “Identificar um componente nada diz sobre como o medicamento foi produzido, sobre sua pureza ou sobre como o organismo reage a ele”, afirmou a farmacêutica. “Confirmar que um produto é seguro e eficaz exige conhecimento técnico especializado, equipamentos de precisão e controles que uma análise pontual não substitui. Sem eles, não se pode descartar os riscos reais desses produtos”.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a comercialização desses produtos, pois eles não possuem registro no órgão. Embora as canetas paraguaias tenham registros válidos na Dinavisa, a autoridade sanitária do Paraguai, a Anvisa alerta para os riscos consideráveis de falsos positivos ou falsos negativos em análises de laboratórios não qualificados ou sem o devido processo de validação. A falta de regulamentação brasileira significa que não há garantia de que os produtos foram fabricados sob condições adequadas, que a dosagem é consistente ou que estão livres de substâncias nocivas. Para mais informações sobre a regulamentação de medicamentos no Brasil, consulte o site da Anvisa.

O mercado ilegal de canetas emagrecedoras do Paraguai e as redes sociais

A proliferação dessas canetas emagrecedoras do Paraguai no mercado clandestino brasileiro é facilitada pela atuação de vendedores em redes sociais. A reportagem mapeou diversos fornecedores que utilizam o TikTok, Instagram e WhatsApp para anunciar os produtos, exibindo fotos e vídeos e direcionando os interessados para negociações privadas. Essa prática representa um desafio significativo para as autoridades de saúde e para as próprias plataformas digitais.

Procuradas, as empresas Meta (responsável por Instagram e WhatsApp) afirmaram que esse tipo de conteúdo viola suas políticas de uso, que proíbem a tentativa de compra ou venda de determinados produtos. No entanto, a fiscalização e a remoção desses anúncios se mostram um esforço contínuo diante da agilidade com que novos perfis e métodos de venda surgem. O consumidor que adquire esses produtos por canais não oficiais se expõe a riscos que vão desde a ineficácia do tratamento até reações adversas graves, sem qualquer garantia ou respaldo legal.

Riscos à saúde pública e o papel da fiscalização

A popularidade dos medicamentos para emagrecimento, como a tirzepatida, criou uma demanda que o mercado regulamentado nem sempre consegue suprir rapidamente ou a preços acessíveis para todos. Essa lacuna é explorada por mercados paralelos, que oferecem alternativas supostamente mais baratas, mas que carregam consigo uma série de perigos. O uso de medicamentos sem a devida prescrição médica e sem a garantia de qualidade e segurança pode levar a complicações de saúde imprevisíveis, desde efeitos colaterais leves até situações de emergência médica.

A análise da Unicamp, embora importante para identificar o princípio ativo, serve como um alerta crucial: a presença da substância desejada não é o único fator a ser considerado. A pureza, a estabilidade do produto, a ausência de contaminantes e a dosagem correta são elementos essenciais para a segurança e a eficácia de qualquer medicamento. A população deve estar ciente dos perigos de adquirir produtos farmacêuticos de fontes não regulamentadas, priorizando sempre a orientação médica e a compra em estabelecimentos autorizados, com produtos aprovados pela Anvisa.

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