O uso de medicamentos injetáveis para emagrecimento, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, tem crescido exponencialmente no Brasil e no mundo. Embora eficazes no controle do peso e da glicemia, esses fármacos, que atuam como agonistas de GLP-1, começam a gerar uma série de relatos de efeitos colaterais que vão além dos já conhecidos problemas gastrointestinais. Pacientes têm reportado uma inesperada perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas, além de uma diminuição significativa da libido, levantando questões sobre o impacto desses tratamentos na qualidade de vida e no bem-estar emocional.
A discussão ganha relevância à medida que mais pessoas aderem a tratamentos com medicamentos como Mounjaro (tirzepatida) e Ozempic (semaglutida). Os relatos de anedonia – a redução da capacidade de sentir prazer – e apatia sugerem que a ação desses fármacos pode ser mais complexa do que se imaginava, atingindo não apenas o apetite, mas também circuitos cerebrais ligados à motivação e ao sistema de recompensa.
A Experiência de Pacientes: Desânimo e Queda da Libido
A advogada Giovana dos Santos Sene, de 25 anos, moradora de Marília, no interior de São Paulo, é um dos exemplos que ilustram essa nova preocupação. Após iniciar o tratamento com Mounjaro para controlar a glicemia e tratar o sobrepeso, Giovana conseguiu emagrecer sete quilos e deixou de usar insulina. No entanto, ela relata uma drástica queda na disposição, na libido e no interesse por atividades de lazer que antes lhe proporcionavam grande prazer.
Segundo Giovana, os sintomas de fraqueza, cansaço e desânimo são mais intensos no dia seguinte à aplicação semanal do medicamento, período em que também sente náusea e mal-estar. Ela compara a sensação a um período anterior de depressão. A advogada conta que passou a sair menos, perdeu o interesse por encontros e se tornou mais emotiva, chorando com mais frequência. “Estou tentando focar em mim e estou bem desinteressada por outras pessoas, o que para mim é uma coisa diferente. Antes do medicamento eu não era assim. Mesmo não tendo um relacionamento, eu tinha algum interesse, um casinho ou outro. Agora não tenho interesse nenhum”, desabafa. Apesar do incômodo, Giovana decidiu seguir o plano médico de cerca de três meses de tratamento.
A Hipótese Científica por Trás dos Efeitos no Humor
Embora os relatos de anedonia e alteração da libido sejam crescentes entre usuários de canetas emagrecedoras, a comunidade científica ainda busca evidências conclusivas para comprovar essa relação. O neurocientista Álvaro Machado Dias, em coluna na Folha, levantou a hipótese de que tirzepatida e semaglutida poderiam afetar circuitos cerebrais ligados ao desejo e à atribuição de valor às experiências, sugerindo uma ação para além do controle da fome.
O neurologista Renato Faria da Gama, professor da pós-graduação em Neurologia da Afya, corrobora que, embora as evidências estejam mais no campo da teoria do que da percepção no mundo real, existem mecanismos biológicos que podem sustentar a hipótese. Inicialmente, acreditava-se que as canetas emagrecedoras atuavam de forma mais restrita às áreas do cérebro envolvidas no controle da fome e da saciedade. Contudo, estudos recentes indicam que esses medicamentos também agem em regiões cerebrais responsáveis pelo processamento de recompensas, motivação e emoções.
Gama explica que o sistema de recompensa é ativado por experiências prazerosas, como uma refeição saborosa ou uma relação sexual. Se os medicamentos que atuam nesse circuito interferem na sua funcionalidade, é plausível que possam afetar também a motivação sexual e a capacidade de sentir prazer em outras atividades. Uma revisão publicada em março, por exemplo, começou a explorar esses potenciais impactos, reforçando a necessidade de mais pesquisas aprofundadas sobre o tema. Para mais informações sobre saúde e bem-estar, consulte fontes confiáveis como a Organização Mundial da Saúde.
O Cenário dos Medicamentos e a Busca por Evidências
Os agonistas de GLP-1, como Mounjaro e Ozempic, são desenvolvidos para mimetizar um hormônio natural produzido pelo intestino, que regula o apetite e a glicose. Sua eficácia na perda de peso e no controle do diabetes tipo 2 é amplamente reconhecida. No entanto, o surgimento de efeitos colaterais relacionados ao humor e ao prazer adiciona uma nova camada de complexidade ao seu uso.
É fundamental que pacientes em tratamento com canetas emagrecedoras estejam atentos a quaisquer mudanças em seu estado emocional ou na percepção de prazer e comuniquem essas alterações a seus médicos. A supervisão médica é crucial para avaliar os benefícios e riscos, ajustar doses ou considerar alternativas, garantindo que o tratamento para o sobrepeso ou diabetes não comprometa a saúde mental e o bem-estar geral do indivíduo. A pesquisa contínua será essencial para desvendar completamente os mecanismos de ação desses medicamentos e seus impactos em todas as esferas da vida dos pacientes.
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