O Brasil enfrenta um cenário de opacidade digital quando o assunto é o monitoramento de anúncios nas principais redes sociais. Um estudo recente, realizado pelo NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com o Minderoo Centre for Technology and Democracy, da Universidade de Cambridge, revelou que o país oferece significativamente menos transparência sobre publicidade online do que a União Europeia e o Reino Unido. O relatório, intitulado “Data Not Found: Transparência de redes sociais para a integridade da informação”, analisou 15 plataformas e expôs a dificuldade de pesquisadores e autoridades em auditar o fluxo de dinheiro no ambiente digital.
O impacto da falta de dados no debate político
A ausência de informações claras sobre quem financia anúncios, quanto é investido e qual o público-alvo dessas peças compromete a integridade do debate público, especialmente em anos eleitorais. Sem acesso a dados granulares, torna-se complexo rastrear a influência do poder econômico nas decisões dos eleitores. Enquanto em mercados como o Reino Unido a transparência foi classificada como “significativa” em certas plataformas, no Brasil, o acesso a dados de redes como o TikTok e o X (antigo Twitter) foi categorizado como “indisponível”.
Para Débora Salles, coordenadora-geral de pesquisa do NetLab UFRJ, essa disparidade cria um ambiente de incerteza. “Na verdade, se criou um mercado paralelo de publicidade política nas redes”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, a falta de ferramentas padronizadas de consulta impede que a sociedade civil realize uma coleta sistemática de informações, deixando o ecossistema de anúncios sob um manto de pouca visibilidade.
A concentração do mercado na Meta
Atualmente, a Biblioteca de Anúncios da Meta — que engloba Facebook e Instagram — funciona como a principal ferramenta para o acompanhamento de gastos políticos no Brasil. No entanto, mesmo essa ferramenta apresenta limitações severas. O estudo aponta que o nível de transparência da empresa no país é “insuficiente”, enquanto na União Europeia é considerado “limitado” e no Reino Unido, “significativo”.
A pesquisadora destaca que a classificação de um conteúdo como “político” é um ponto crítico. Muitos anúncios que abordam pautas de interesse público, governos ou temas de pré-campanha não são rotulados como políticos pelas plataformas. Consequentemente, esses conteúdos ficam fora dos repositórios de transparência, impossibilitando o acesso a metadados essenciais e faixas de gastos. Além disso, a Meta utiliza intervalos amplos para reportar valores investidos, o que dificulta uma auditoria precisa sobre o montante real aplicado em cada peça publicitária.
Desafios regulatórios e o papel da justiça
Embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha implementado regras que obrigam as plataformas a manterem repositórios de anúncios políticos, o modelo atual possui limitações estruturais. A eficácia dessas medidas está atrelada à boa-fé do anunciante em classificar corretamente a peça publicitária. Para especialistas, o desafio é estabelecer parâmetros vinculativos que exijam transparência total, independentemente da categoria atribuída ao anúncio pelo próprio autor.
A comparação internacional reforça que a qualidade dos dados oferecidos pelas empresas varia conforme as exigências regulatórias locais. O Brasil, ao apresentar níveis consistentemente mais baixos de acesso, evidencia a necessidade de um debate mais profundo sobre a regulação das Big Techs. A análise completa e os detalhes sobre a metodologia aplicada pelo NetLab podem ser consultados no portal oficial do NetLab UFRJ.
O M1 Metrópole segue acompanhando de perto os desdobramentos sobre a regulação das plataformas digitais e o impacto das tecnologias na democracia brasileira. Continue conosco para se manter informado com reportagens aprofundadas, análises contextuais e o compromisso com a notícia de qualidade.