A burocracia na liberação de medicamentos importados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem se tornado um calvário para pacientes brasileiros que dependem desses fármacos para tratamentos contínuos e, muitas vezes, vitais. Relatos de longas esperas, que antes duravam dias e agora se estendem por semanas, acendem um alerta sobre o impacto direto na saúde e na qualidade de vida de quem já enfrenta batalhas complexas contra doenças graves.
Um dos casos que ilustram essa realidade é o do advogado Herberto Alfonso, de 58 anos. Diagnosticado em setembro de 2025 com um melanoma ocular metastático no fígado, ele aguardava, até a terça-feira (13), a liberação sanitária de seu medicamento, o Kimmtrak (tebentafusp). O fármaco, essencial para seu tratamento oncológico contínuo, chegou ao Brasil em 26 de setembro, mas permaneceu retido, gerando apreensão e incerteza.
A Burocracia que Aflige Pacientes Críticos
A situação de Herberto Alfonso é um exemplo da luta de muitos. Sem a cobertura do plano de saúde ou do hospital para a importação, ele precisou recorrer à compra como pessoa física, com o apoio da empresa especializada World Medic. Diante do atraso, o advogado buscou todos os canais possíveis: abriu protocolos de atendimento, acionou a ouvidoria da Anvisa e enviou manifestações à Controladoria-Geral da União (CGU), solicitando prioridade na análise de seu caso.
“Mesmo explicando que se trata de tratamento oncológico contínuo e urgente, a orientação recebida é apenas aguardar a tramitação normal. Somos submetidos a um excesso de protocolos, sem um canal efetivo de atendimento capaz de compreender a urgência de situações em que cada dia pode fazer diferença”, desabafa Alfonso, evidenciando a angústia de quem tem o tempo como um fator crítico em seu tratamento.
O cenário não é exclusivo a Alfonso. Profissionais do setor, que lidam diariamente com a importação de medicamentos para pacientes, confirmam a intensificação das dificuldades. Processos que antes eram concluídos em dois ou três dias, agora demandam semanas, impactando diretamente a continuidade de tratamentos para doenças raras, crônicas ou oncológicas, onde a interrupção pode ter consequências devastadoras.
Anvisa e o Desafio da Demanda Crescente
Procurada para esclarecimentos, a Anvisa confirmou que o processo de importação de Herberto Alfonso estava em análise desde 29 de setembro, mas não detalhou se a urgência médica foi considerada ou o motivo da persistência da pendência. A agência justificou os atrasos alegando um “aumento expressivo das importações nos últimos seis meses”, especialmente de medicamentos ainda não regularizados no país.
A Anvisa afirma que pedidos com indicação médica de urgência podem, de fato, receber prioridade, mas ressalta que a alta demanda geral tem afetado os prazos de análise. A agência, contudo, não divulgou o número de pedidos de pessoas físicas que aguardam autorização, o que dificulta a mensuração exata do problema.
Transição Digital e os Impactos no Processo
Desde outubro de 2025, a Anvisa implementou um novo sistema digital para centralizar a análise das importações de medicamentos. A iniciativa visava padronizar os procedimentos e identificar possíveis falhas na documentação, prometendo mais eficiência e transparência. No entanto, a transição não tem sido isenta de desafios.
Em junho deste ano, a própria agência reconheceu publicamente as dificuldades de adaptação ao novo sistema. Em nota, a Anvisa mencionou que o acúmulo de processos e erros no preenchimento das declarações de importação resultavam em mais análises manuais e exigências adicionais, prolongando significativamente o tempo de avaliação. Profissionais do setor, como o ajudante de despachante Marcelo Lima, corroboram que as dificuldades persistem e se intensificaram a partir de setembro, tornando o processo, antes corriqueiro, mais burocrático e demorado.
A situação atual da liberação de medicamentos importados pela Anvisa é um reflexo de um sistema sob pressão, onde a alta demanda e a adaptação a novas ferramentas digitais se chocam com a urgência e a sensibilidade dos tratamentos de saúde. É fundamental que a agência encontre um equilíbrio entre a fiscalização rigorosa e a agilidade necessária para garantir que pacientes como Herberto Alfonso não tenham sua saúde ainda mais comprometida pela espera. O M1 Metrópole continuará acompanhando de perto os desdobramentos dessa questão vital para a saúde pública brasileira, trazendo informações relevantes e contextualizadas para nossos leitores.