Em um cenário de profundas transformações nas dinâmicas sociais e de gênero, homens em diversas partes do Brasil, incluindo São Paulo, têm expressado um crescente receio em abordar mulheres, temendo serem acusados de assédio. O discurso de que “tudo virou assédio” ganhou força em plataformas digitais e em conversas cotidianas, revelando uma complexa teia de inseguranças, desorientação e, por vezes, resistência às novas etiquetas de interação.
Essa percepção não é isolada. Comentários em redes sociais e relatos pessoais indicam uma dificuldade em discernir os limites entre o flerte e a conduta inadequada, gerando um ambiente de cautela que impacta diretamente as relações interpessoais e a forma como a paquera é percebida e praticada na sociedade atual.
A ascensão do discurso do “tudo virou assédio”
A discussão em torno do que constitui assédio e a linha tênue que o separa de uma abordagem respeitosa ganhou visibilidade em diversos espaços, especialmente nas redes sociais. Um exemplo marcante foi a repercussão de um vídeo do influenciador e humorista Yuri Viana, de 28 anos. Na encenação de um encontro, enquanto o personagem masculino hesita e fala sem parar, a personagem feminina anseia por uma iniciativa, pensando: “Será que ele não vai me beijar? Estamos aqui há duas horas”.
A postagem foi inundada por comentários de homens que se identificaram com a situação, expressando o temor de que qualquer tentativa de aproximação possa ser mal interpretada e resultar em uma acusação de assédio. Esse tipo de reação levou Yuri Viana a criar conteúdo didático, com humor e leveza, para explicar as diferenças entre flerte e assédio. Suas dicas, compartilhadas com 343 mil seguidores no Instagram, incluem a fundamental orientação de não insistir após um “não” e evitar constrangimentos. “Tento mostrar que existem formas respeitosas de abordagem e que o ‘não’ faz parte”, afirmou Viana à Folha de S.Paulo, destacando que, embora seja um processo gradual, alguns de seus seguidores relataram ter compreendido melhor certos limites.
Resistência a mudanças e a dinâmica do poder
Para especialistas, o discurso de que “tudo virou assédio” não é um fenômeno recente, mas ganhou uma amplificação sem precedentes com a ascensão das redes sociais. Marina Ganzarolli, presidente do Me Too Brasil, aponta que essa narrativa reflete uma resistência em reconhecer e aceitar as mudanças estruturais nas relações de gênero. “O que estamos falando quando falamos de assédio é de controle e de poder. Mudanças nessa dinâmica podem gerar resistência”, explica Ganzarolli.
A advogada ressalta a carência de referências e modelos de masculinidade que não estejam intrinsecamente ligados ao controle ou à insistência. A transição de um modelo tradicional, onde a autoridade e a figura do homem provedor eram a norma, para um paradigma mais igualitário, tem gerado uma sensação de desorientação para muitos homens, conforme observa a psicanalista Luciana Saddi, da Sociedade Brasileira de Psicanálise em São Paulo.
Medos coexistentes e a necessidade de adaptação
A psicóloga Mayumi Kitagawa, fundadora da plataforma Sou Pagu, adiciona uma camada crucial a essa discussão ao destacar a assimetria entre os medos. Enquanto homens expressam o receio de serem mal interpretados, mulheres, por sua vez, estão constantemente buscando formas de avaliar riscos e se proteger de perigos reais. “Existem dois medos que coexistem no mesmo espaço, mas eles não são equivalentes”, afirma Kitagawa, sublinhando que o medo feminino de assédio e violência é uma preocupação histórica e sistêmica.
Apesar dessa complexidade, Mayumi Kitagawa e Luciana Saddi concordam que a paquera não está fadada ao fim, mas sim a uma necessária adaptação. Saddi enfatiza que, embora expectativas diferentes possam gerar confusão, a ignorância dos limites não é ingenuidade. “Os homens sabem quando estão ignorando um limite. Não é ingenuidade”, pontua a psicanalista. O flerte, por sua natureza, é uma comunicação codificada que depende fundamentalmente da reciprocidade. Quando esses sinais se tornam mais complexos, a insegurança pode surgir, exigindo uma maior atenção e sensibilidade de todas as partes envolvidas.
Em busca de uma nova etiqueta social
A discussão sobre assédio e as novas dinâmicas de flerte ressalta a urgência de uma reeducação social. É fundamental que homens e mulheres desenvolvam uma compreensão mais apurada sobre consentimento, respeito e comunicação não verbal. A adaptação a esses novos parâmetros não significa o fim da espontaneidade, mas sim o reconhecimento de que as interações devem ser baseadas em mútuo respeito e clareza de intenções. A construção de uma nova etiqueta social para o flerte é um processo contínuo, que exige diálogo, empatia e a disposição de todos para evoluir.
Para se manter atualizado sobre este e outros debates relevantes que moldam a sociedade contemporânea, continue acompanhando o M1 Metrópole. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, abordando os temas que impactam diretamente a sua vida e o seu entorno.