A fase do puerpério, conhecida popularmente como resguardo, é um período de intensas transformações físicas e emocionais para a mulher após o parto. Crucial para a recuperação do corpo e o estabelecimento do vínculo com o bebê, essa etapa deveria ser marcada por cuidado e apoio. No entanto, relatos recentes, impulsionados por discussões nas redes sociais, revelam uma realidade preocupante: muitas mulheres sofrem pressão de seus parceiros para retomar a vida sexual antes do tempo recomendado, expondo-se a sérios riscos à saúde.
A discussão ganhou destaque após a circulação de vídeos em que o cantor Nattan comenta sobre o puerpério da apresentadora Rafa Kalimann, sua esposa. Em uma entrevista concedida em fevereiro, o artista declarou: “Na hora que a fábrica abrir, eu não vou perder tempo. Se ela quiser se esquivar, eu: não, vem para cá, e vai vir”. A fala gerou uma onda de críticas e, mais importante, abriu espaço para que diversas mulheres compartilhassem suas próprias experiências de pressão e desconforto durante o resguardo, evidenciando um problema que muitas vezes permanece silenciado.
O Que É o Puerpério e Sua Importância para a Recuperação Feminina
O puerpério é o período que se inicia logo após o parto e se estende até que o corpo da mulher retorne às suas condições pré-gravidez. Sua duração pode variar, mas a recomendação de órgãos como a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) é de, no mínimo, 6 semanas, ou 42 dias. Esse prazo é fundamental para que o útero se reestabeleça, o assoalho pélvico se recupere e as cicatrizações de lacerações ou incisões cirúrgicas (em caso de cesárea ou episiotomia) ocorram adequadamente.
Além das mudanças físicas, há uma intensa reorganização hormonal e um turbilhão de emoções. A ginecologista Sandra Cristina Poerner Scalco, membro da comissão nacional especializada em sexologia da Febrasgo, enfatiza que a decisão sobre a retomada das relações sexuais deve ser “individualizada e centrada na mulher, considerando sua recuperação física, conforto e desejo sexual”. Para a especialista, o bem-estar da mulher deve ser a prioridade, acima de qualquer critério de tempo.
Riscos Físicos e Emocionais da Retomada Precoce do Sexo
Transar antes da conclusão do processo de recuperação expõe a mulher a uma série de riscos. A ginecologista Karina Belickas, do Hospital e Maternidade Santa Joana, explica que, em casos de cesárea, a retomada precoce pode levar a infecções nos pontos. Já no parto normal, lacerações ou episiotomias (cortes cirúrgicos no períneo) podem reabrir, causando sangramento, dor intensa e dificultando a cicatrização.
A dor e o desconforto não são os únicos problemas. A amamentação, comum nesse período, provoca secura vaginal devido a um bloqueio hormonal, tornando a penetração ainda mais dolorosa. A Dra. Scalco alerta que as duas primeiras semanas são as mais críticas, com maior risco de sangramento e infecção, pois o colo uterino pode estar parcialmente aberto e o endométrio ainda em processo de cicatrização.
Os impactos psicológicos são igualmente severos. A trabalhadora autônoma Sara Ferreira, 28, mãe de dois filhos, compartilhou sua dolorosa experiência. Em 2017, aos 19 anos, após um parto com fórceps, ela ainda estava com pontos quando o namorado pediu para “quebrar o resguardo”, alegando que “não aguentaria tanto tempo”. Ferreira descreve-se como “dolorida, exausta e depressiva”, sentindo “muito nova, com dois bebês, dando conta de tanta carga física e emocional sozinha”. A relação, que ela recorda como uma “dor horrível”, resultou em sangramentos e um “sentimento de vazio, dor, desamparo e solidão”. O pai do bebê deixou a família cinco meses após o nascimento do filho.
A Pressão Social e a Autonomia Feminina no Pós-Parto
O relato de Sara e de tantas outras mulheres expõe uma falha social na compreensão e no respeito ao puerpério. A pressão por sexo nesse período não é apenas uma questão de desconforto físico, mas uma violação da autonomia feminina e um desrespeito ao processo de recuperação da mulher. A exaustão, as dores, as mudanças corporais e hormonais, e a demanda de cuidar de um recém-nascido já são desafios imensos. Adicionar a isso a obrigação de satisfazer o parceiro pode ter consequências devastadoras para a saúde mental e física da puérpera.
É fundamental que haja mais conscientização sobre a importância do resguardo e que os parceiros compreendam seu papel de apoio e paciência. A intimidade pode ser expressa de diversas outras formas durante esse período, sem colocar em risco a saúde da mulher. O diálogo aberto e a busca por informações junto a profissionais de saúde são passos essenciais para garantir que o puerpério seja um tempo de cuidado e recuperação, e não de sofrimento e imposição.
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