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O peso da economia nas eleições: por que seu impacto no voto diminui, segundo Marcus Melo

6.out.24/Folhapress
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A influência da economia sobre o comportamento eleitoral é um dos temas mais debatidos em períodos de disputa política, frequentemente resumido pelo famoso bordão “é a economia, estúpido”. No entanto, uma análise aprofundada do professor Marcus Melo, da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA), publicada em 24 de maio de 2026, revela que essa correlação tradicional pode estar em declínio. Melo aponta para uma série de fatores que estão redefinindo como os eleitores avaliam o desempenho econômico e, consequentemente, como esse julgamento se traduz nas urnas.

A percepção da economia, longe de ser um julgamento puramente objetivo, é cada vez mais moldada por preferências partidárias e lealdades políticas. Este fenômeno, conhecido na literatura como “partisan cheerleading” ou “efeito torcida partidária”, sugere que as avaliações de governo e da situação econômica são, em parte, uma forma de expressar identificação política. Em vez de refletir apenas dados concretos, as respostas em pesquisas de opinião são “contaminadas” por essa torcida, levando simpatizantes a atribuir um desempenho melhor a governos com os quais se alinham politicamente, mesmo diante de cenários desafiadores.

O “efeito halo” e a polarização nas percepções econômicas

O conceito de “efeito halo” é central para entender essa dinâmica. Ele descreve como a percepção de características positivas de um político ou partido pode influenciar a avaliação de seu desempenho geral, incluindo a economia. Quanto mais intensa a lealdade partidária, maior o viés na percepção. Marcus Melo destaca que há fortes evidências de que o impacto do partidarismo sobre as percepções econômicas aumentou significativamente, especialmente nos Estados Unidos, mas com uma nuance importante: o crescimento é mais evidente nas avaliações sociotrópicas — ou seja, “como está a economia nacional?” — do que nas avaliações egotrópicas — “como estão minhas finanças pessoais?”.

Essa distinção é crucial. Enquanto a situação financeira pessoal pode ser mais difícil de distorcer, a avaliação da economia em nível nacional é mais suscetível à influência partidária. Pesquisas nos EUA demonstram que a diferença na percepção de melhora econômica entre democratas e republicanos praticamente dobrou entre 1999 e 2020. Durante o primeiro mandato do ex-presidente Donald Trump, essa disparidade chegou a impressionantes 73%, um número que sublinha a profundidade da polarização na interpretação dos fatos econômicos.

A diminuição da importância do desempenho econômico real

A implicação mais direta desses achados é que o comportamento real da economia tende a perder importância relativa no voto. Se a percepção é enviesada pela lealdade partidária, a correlação entre indicadores econômicos objetivos e a avaliação de desempenho governamental diminui. Isso pode ter um impacto profundo na responsabilização política, enfraquecendo a capacidade dos eleitores de cobrar governantes por mau desempenho ou casos de corrupção, uma vez que a base de apoio pode permanecer fiel independentemente dos resultados.

Este fenômeno se sobrepõe ao conhecido viés de disponibilidade, uma heurística que dá mais peso a informações recentes na tomada de decisão. Nos EUA, por exemplo, o desempenho da economia nos três anos anteriores de um mandato presidencial não tem se mostrado decisivo para o voto; apenas o último semestre ou ano é que realmente importa. O eleitor, metaforicamente, “olha pelo retrovisor apenas nos últimos metros da corrida”, focando nos eventos mais próximos à eleição e ignorando um histórico mais amplo.

O papel dos eleitores independentes e a “arquitetura da escolha”

Apesar da crescente influência do partidarismo, Marcus Melo ressalta duas questões fundamentais que não devem ser esquecidas. Primeiro, o grupo de eleitores independentes — aqueles sem uma torcida partidária definida — tem crescido tanto no Brasil quanto nos EUA, onde hoje representa a maior fatia do eleitorado. São esses os eleitores voláteis, cujo voto não é pré-determinado por lealdades e, portanto, podem ser mais sensíveis a fatores econômicos objetivos e ao desempenho geral do governo. A análise do comportamento desse grupo é crucial para compreender as dinâmicas eleitorais futuras.

Segundo, o que realmente interessa, ao fim e ao cabo, é a “arquitetura da escolha”. Mesmo um candidato muito mal avaliado pode ser eleito se o cenário político e as alternativas disponíveis forem desfavoráveis ou se a polarização for tão intensa que a rejeição ao adversário se torne o principal motor do voto. Isso significa que, mesmo com a economia perdendo peso como fator isolado, o contexto geral da disputa, a força dos partidos e a estratégia dos candidatos continuam a ser elementos determinantes.

A compreensão dessas complexas interações entre economia, partidarismo e percepção eleitoral é vital para analisar os cenários políticos futuros, especialmente com as próximas eleições se aproximando. O M1 Metrópole continuará a acompanhar e aprofundar as discussões sobre os fatores que moldam o voto e o futuro do Brasil, trazendo análises e informações relevantes para seus leitores. Acompanhe nossas reportagens e mantenha-se informado sobre os desdobramentos da política nacional e global.

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