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Líder do combate às drogas nos EUA, Nora Volkow, adota nova visão sobre psicodélicos

19.mar.24/NYT
Reprodução Folha

Em um movimento que sinaliza uma mudança significativa na abordagem da saúde mental e do tratamento de dependência química, a médica conservadora Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida) dos EUA desde 2003, reavaliou publicamente sua postura em relação ao uso de substâncias psicodélicas para fins terapêuticos. Conhecida por sua visão cautelosa, Volkow, que já havia expressado ceticismo sobre a aprovação de psicodélicos como a ibogaína, agora reconhece o potencial transformador desses compostos na psiquiatria moderna.

A reviravolta foi destacada durante uma palestra na reunião anual da Associação Psiquiátrica Americana (APA), realizada em São Francisco entre 16 e 20 de maio. A declaração de Volkow não apenas surpreendeu a comunidade científica, mas também alinha-se a um cenário político recente, onde o ex-presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva para acelerar a pesquisa clínica com psicodélicos, com ênfase na ibogaína. Este contexto sublinha a crescente aceitação e o interesse renovado em terapias que, por décadas, foram marginalizadas.

A ‘Rainha’ da Dependência Química e a Ciência em Evolução

Nora Volkow, frequentemente referida como a ‘rainha’ do combate à dependência química nos EUA, sempre pautou suas decisões em evidências científicas rigorosas. Sua frase, “Se eu não posso mudar minhas visões baseada em evidências, por que raios então fazer ciência?”, encapsula a essência de sua abordagem. Há apenas dois anos, ela considerava improvável a aprovação da ibogaína para dependência, conforme relatado pelo boletim de saúde Stat. Contudo, a evolução das pesquisas e os dados emergentes a levaram a uma nova conclusão.

Em sua recente fala, Volkow afirmou que a ibogaína, um composto derivado da planta africana Tabernanthe iboga, está entre os psicodélicos mais poderosos em teste para psicoterapêutica. Esta declaração, divulgada pelo boletim Psychedelic Alpha, que publicou trechos de sua palestra e uma entrevista com o editor Josh Hardman, marca um ponto de virada. A própria médica confessou: “Se você me dissesse anos atrás que eu estaria falando sobre psicodélicos [na reunião da APA], jamais acreditaria. Nem nos meus sonhos mais loucos imaginaria estar aqui, incentivando todos a aprenderem por que essas substâncias são tão potencialmente interessantes para a psiquiatria.”

Ibogaína e Psilocibina: O Potencial Terapêutico em Foco

A ibogaína tem atraído atenção especial por seu uso em clínicas no México, onde veteranos de guerra dos EUA buscam tratamento para transtorno de estresse pós-traumático e dependência. A ligação pessoal de Volkow com o México, onde cresceu na casa de seu bisavô Leon Trótski em Coyoacán, adiciona uma camada interessante à sua jornada. Ela visitou a clínica Transcend em Cancún, um dos centros com maior reputação no uso da ibogaína, e ficou impressionada.

“Conheci pacientes lá que diziam ter sido curados, supostamente, de sua depressão e dependência. Fiquei impressionado com a forma como eles conduziam as coisas farmacologicamente, com a supervisão, a triagem dos pacientes e a maneira como realizavam a intervenção”, relatou Volkow. Além da ibogaína, ela também apresentou dados sobre a psilocibina, um psicodélico encontrado em certos cogumelos, que demonstrou resultados promissores em estudos sobre longa abstinência de dependentes de álcool e tabaco.

A Abordagem Científica e o Desafio do Placebo

Apesar do entusiasmo, Volkow mantém seu rigor científico. Ela não descarta o efeito placebo nos bons resultados observados com psicodélicos, reconhecendo que as expectativas podem ser poderosas. No entanto, ela questiona: “Se um placebo produz aumento de 90% na satisfação com a vida, gostaria de saber o que torna esse placebo tão impactante!” Essa provocação sublinha a necessidade de aprofundar a pesquisa para entender os mecanismos de ação e os efeitos duradouros dessas substâncias.

Para Volkow, o momento é de reconhecimento e exploração. “Realmente compete a todos nós reconhecer que psicodélicos, embora antigos, representam uma classe de medicamentos completamente nova e transformadora na psiquiatria. Eles nos dão a oportunidade de revisitar o que já sabemos há muito sobre a importância da psicoterapia, mas de uma forma que pode ser acelerada e aprofundada.”

Implicações e o Cenário Global da Pesquisa

A mudança de perspectiva de uma figura tão influente como Nora Volkow tem implicações profundas para a pesquisa, regulamentação e aceitação pública dos psicodélicos. Historicamente estigmatizadas, essas substâncias estão sendo reavaliadas por seu potencial em tratar condições como depressão, ansiedade, TEPT e dependência, oferecendo esperança a milhões de pessoas que não respondem aos tratamentos convencionais.

O contraste com governos que desconsideram a ciência, como o mencionado por Marcelo Leite em relação ao governo Jair Bolsonaro no Brasil, ressalta a importância de líderes que baseiam suas decisões em evidências. A abertura nos EUA, impulsionada tanto pela ciência quanto por iniciativas políticas, pode inspirar outros países a investir em pesquisa e a considerar novas abordagens para problemas de saúde pública que afetam milhões.

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