Um novo capítulo de grave denúncia de assédio sexual e moral emerge no caso do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, de 53 anos, já preso sob acusação de feminicídio contra sua esposa, a soldado Gisele Alves. Mensagens de celular obtidas pela investigação revelam que o oficial assediou sexualmente outra subordinada, a soldado Rariane Generoso, de 32 anos, por um período de oito meses em São Paulo. O conteúdo das conversas expõe uma perseguição insistente e constrangedora, que se estendeu até mesmo após a morte de Gisele, ocorrida em fevereiro deste ano.
As evidências, que incluem prints de WhatsApp, detalham a conduta de Neto entre 26 de junho de 2025 e 4 de março de 2026. Durante esse tempo, ele teria feito investidas românticas e sexuais, mesmo sendo casado com Gisele Alves, que tinha a mesma patente e idade de Rariane. A denúncia, que abrange assédio sexual e moral, ameaça, perseguição e coação, foi entregue à corporação pelo advogado de Rariane no mês passado, adicionando uma camada ainda mais complexa ao já delicado processo criminal que o tenente-coronel enfrenta.
O Padrão de Assédio e as Mensagens Explícitas
As mensagens trocadas entre Geraldo Neto e a soldado Rariane Generoso pintam um quadro de assédio persistente e invasivo. Em 11 de setembro de 2025, o oficial questiona a subordinada: “Quer namorar comigo?”. Outras mensagens revelam um tom ainda mais explícito e desrespeitoso, como “Não vejo a hora de te dar um beijo bem gostoso nessa sua boca deliciosa.” A insistência do tenente-coronel era tamanha que ele chegou a projetar um futuro com a soldado, escrevendo: “Sabe quando isso vai acabar? Quando a gente se casar e ter um filho bem lindo e saudável abençoado por Deus.”
De forma ainda mais perturbadora, Neto frequentemente invocava o nome de Deus em suas investidas, agradecendo por tê-la encontrado e mencionando orações: “Gosto muito de você e continuo a falar com Deus sobre você em minhas orações.” e “Pensei em te convidar pra gente ir a missa juntos.” As respostas de Rariane, por sua vez, eram sempre categóricas e diretas, expressando sua recusa e desconforto. “Não vamos ter nada.”, “Vamos manter o profissionalismo, por favor.” e “Olha, eu só peço para que me deixe em paz.” são algumas das frases que demonstram a tentativa da soldado de estabelecer limites claros.
A situação gerou um profundo mal-estar para Rariane, que relatou o impacto emocional do assédio. “Nunca tivemos nada e ver meu nome associado como amante tá me deixando muito doente.”, desabafou a soldado em uma das mensagens. Ela ainda acrescentou: “Se quer mesmo o meu bem, para de me procurar como se tivéssemos alguma coisa.” A pressão e o constrangimento eram constantes, com colegas da corporação comentando sobre um suposto relacionamento, o que a fez sofrer dentro do ambiente de trabalho.
Abordagens Fora do Quartel e o Uso da Posição Hierárquica
As investidas do tenente-coronel não se limitaram ao ambiente virtual. A denúncia à Corregedoria da Polícia Militar detalha que Geraldo Neto também buscou contato físico, indo até o prédio onde Rariane mora com um buquê de flores. Uma câmera de segurança registrou o momento em que ele saiu da portaria do condomínio. Após a visita, ele chegou a enviar uma mensagem à soldado, demonstrando que havia descoberto seu endereço: “Achei bom aí a rua do seu prédio e também a própria estrutura do condomínio onde você mora”.
Em outra ocasião, o oficial teria retornado ao local durante o expediente, fardado e utilizando uma viatura oficial, o que é proibido pelas normas da PM para uso pessoal. Rariane também relatou que Neto a chamava frequentemente para encontros e fazia elogios à sua beleza dentro do ambiente de trabalho, mesmo diante de suas recusas. A insistência era tamanha que, em algumas mensagens, ele declarava seu amor: “Eu te amo muito e quero fazer você feliz de verdade.”
A situação se agravou com a tentativa do tenente-coronel de usar sua posição de comando para manipular a soldado. Ele teria sugerido que Rariane assumisse uma função administrativa próxima a ele e, após a recusa, a teria ameaçado de transferência. Esse tipo de conduta é particularmente grave em uma instituição hierárquica como a Polícia Militar, onde a relação de poder pode ser facilmente utilizada para coação. A soldado chegou a evitar escalas de trabalho em que ele estivesse presente, por medo das investidas.
O Contexto do Feminicídio e a Investigação
A gravidade das denúncias de assédio ganha um contorno ainda mais sombrio ao se conectar com o caso de feminicídio da soldado Gisele Alves. Geraldo Neto está preso sob acusação de balear a esposa dentro do apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro deste ano. Gisele não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital. O Ministério Público de São Paulo aponta que o crime ocorreu porque o oficial não aceitava a separação, motivada por descobertas de traições.
Neto é réu por feminicídio, caracterizado como assassinato de mulher por razões de gênero, e por fraude processual, acusado de alterar a cena do crime para simular um suicídio. A defesa do tenente-coronel, no entanto, sustenta que Gisele tirou a própria vida e que seu cliente é inocente. Mesmo após a morte da esposa, a denúncia afirma que Neto continuou a procurar Rariane, enviando mensagens para tentar se explicar e negar o crime, contatos que a soldado ignorou.
Implicações para a Corporação e a Busca por Justiça
As novas denúncias de assédio contra o tenente-coronel Geraldo Neto reforçam a urgência de um debate sobre a cultura de respeito e hierarquia dentro das forças de segurança. A Corregedoria da PM está analisando as conversas para apurar administrativamente a conduta de Neto. Além do processo criminal na Justiça comum, o oficial responde a um procedimento interno na Polícia Militar, que pode resultar na perda do cargo.
A Corregedoria também investiga se Neto usou sua posição de superioridade para intimidar os agentes da PM que atenderam à ocorrência da morte de Gisele, cujo comportamento foi gravado por câmeras corporais. O advogado do tenente-coronel afirmou ao g1 que não tinha conhecimento da nova acusação de assédio no momento da reportagem. Este caso expõe não apenas a violência de gênero, mas também a complexidade das relações de poder em ambientes militares e a importância de mecanismos eficazes de denúncia e apuração para proteger as vítimas e garantir a integridade da instituição.
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