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Mudanças na coloração das unhas podem sinalizar condições de saúde

Mudanças na coloração das unhas podem sinalizar condições de saúde
Eric Feferberg - 14.set.14/AFP

As unhas, muitas vezes vistas apenas como um detalhe estético ou uma parte do corpo que cortamos e esmaltamos, são, na verdade, pequenas janelas para a nossa saúde. Passando despercebidas no dia a dia, elas podem guardar pistas valiosas sobre o que se passa internamente, revelando detalhes que, se observados com atenção, podem indicar a necessidade de uma avaliação médica.

Entre esses indicadores silenciosos, destaca-se uma estrutura pouco notada na base da unha: a lúnula. Essa pequena meia-lua esbranquiçada, mais evidente nos polegares, não é meramente um adorno, mas a porção visível da matriz ungueal, um tecido vivo e essencial responsável pela produção contínua de novas células que formam a unha.

A Lúnula: Uma Janela para o Corpo

A coloração habitual da lúnula é branca ou levemente rosada, um tom que resulta de um complexo jogo de luz e estrutura celular. Na região da lúnula, o tecido é mais espesso, o que restringe a passagem de luz em comparação com o restante da unha. Além disso, as células ali ainda não completaram o processo de compactação para adquirir a transparência característica da queratina, o que faz com que a luz se disperse mais, conferindo-lhe uma tonalidade mais clara.

Fora da lúnula, a unha atua como uma espécie de visor, permitindo a visualização dos vasos sanguíneos subjacentes, o que explica sua aparência rosada. Curiosamente, a ciência ainda investiga a influência exata de cada um desses fatores na coloração final da unha.

É importante ressaltar que a ausência da lúnula em todos os dedos não é motivo de preocupação. Em muitos casos, especialmente no dedo mínimo, a matriz ungueal pode estar coberta pela pele, tornando a lúnula quase imperceptível. Nos polegares, contudo, ela é geralmente bem visível devido ao maior tamanho da matriz ungueal.

O Alerta da Coloração Vermelha nas Lúnulas

O que realmente pode ser um sinal clinicamente relevante é uma mudança persistente na cor da lúnula, especialmente quando ela adquire um tom avermelhado. Um estudo abrangente, publicado no renomado periódico científico American Journal of the Medical Sciences, compilou décadas de casos descritos, estabelecendo associações entre lúnulas vermelhas e diversas condições de saúde.

Entre as patologias ligadas a essa alteração, incluem-se doenças cardiovasculares, hepáticas, hematológicas, dermatológicas e reumatológicas. Exemplos notáveis são insuficiência cardíaca, cirrose, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, alopecia areata e até mesmo intoxicação por monóxido de carbono.

O fenômeno não é recente, sendo reconhecido desde meados do século XX. A primeira descrição detalhada, conforme a análise, foi publicada em 1954 por Richard Terry, do Hospital St. Bartholomew, em Londres. Ele investigou 23 pacientes com lúnulas vermelhas, constatando que 14 deles (61%) haviam sido diagnosticados com insuficiência cardíaca. Os demais apresentavam outras doenças sistêmicas, como enfisema, bronquite crônica, policitemia vera, desnutrição, cirrose, linfoma e leucemia mieloide.

Diagnóstico e Contexto Clínico das Alterações

Contudo, a presença de uma lúnula vermelha não deve ser interpretada como um diagnóstico automático de uma doença grave. A relação não é linear: nem todas as pessoas com as doenças associadas apresentam a lúnula vermelha e, inversamente, indivíduos com lúnulas avermelhadas podem não ter nenhuma patologia sistêmica subjacente.

Para auxiliar na determinação da causa, a distribuição da coloração entre as diferentes unhas pode oferecer pistas cruciais. Quando a tonalidade avermelhada surge de forma bilateral e simétrica em várias unhas, frequentemente mais notável nos polegares, os médicos tendem a considerar com maior atenção uma causa sistêmica. Se a alteração se restringe a uma única unha, torna-se mais relevante investigar possíveis causas locais, como infecções, sangramentos ou tumores subungueais.

A explicação biológica para o avermelhamento ainda não está completamente elucidada, mas a pesquisa aponta para um possível mecanismo vascular. A dilatação dos capilares sob a lúnula poderia aumentar o fluxo sanguíneo para a área, contribuindo para sua coloração. Uma manobra clínica que pode fornecer informações durante o exame é a pressão sobre a lúnula: se ela empalidecer, isso pode indicar uma origem vascular.

Diante desses fatores, os especialistas recomendam que, em casos de lúnulas verdadeiramente vermelhas, uma avaliação médica geral é aconselhável para investigar possíveis problemas subjacentes. A raridade e a inespecificidade desse achado podem, muitas vezes, levar à negligência de sua potencial relevância clínica.

Outros Sinais Reveladores nas Unhas

Além da lúnula, as unhas podem preservar outras evidências sobre o histórico de saúde do corpo. A parte dura que cortamos, composta de queratina e desprovida de nervos ou vasos sanguíneos, cresce lentamente da matriz até a ponta do dedo, um processo que leva aproximadamente seis meses para ser concluído. Por essa razão, uma interrupção temporária no crescimento da unha pode deixar marcas visíveis por meses.

É o caso das linhas de Beau, sulcos horizontais que podem surgir quando uma doença grave interrompe temporariamente o crescimento ungueal. A marca fica incrustada na lâmina da unha e, mesmo após a recuperação da pessoa, ela avança em direção à ponta do dedo por meses. É fundamental, no entanto, diferenciar essas alterações específicas de muitas crenças populares sobre as lúnulas. Tamanho, formato ou visibilidade não revelam, por si só, nada sobre a saúde de alguém, pois a anatomia normal explica grande parte dessas diferenças.

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