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Análise: o declínio do impacto da economia nas eleições e o ‘efeito torcida’

Análise: o declínio do impacto da economia nas eleições e o 'efeito torcida'

A relação entre a performance econômica de um país e o comportamento eleitoral de seus cidadãos é um tema recorrente, especialmente em períodos pré-eleitorais. O bordão popular “é a economia, estúpido” frequentemente resume essa percepção. No entanto, análises recentes, como a do professor Marcus Melo, sugerem que o impacto da economia sobre o voto pode estar diminuindo, um fenômeno com implicações significativas para a política e a responsabilização democrática.

Essa mudança de paradigma desafia a visão tradicional de que o desempenho econômico objetivo é o principal motor das escolhas nas urnas. Em vez disso, a lente pela qual os eleitores percebem a economia parece ser cada vez mais influenciada por suas próprias preferências partidárias e lealdades políticas, criando um cenário onde a “torcida” pode pesar mais que os fatos.

O fenômeno do “efeito torcida” partidária no voto

A literatura acadêmica tem explorado o que é conhecido como “partisan cheerleading” ou “efeito torcida partidária”. Este conceito descreve como as avaliações de governo e da economia não são meramente julgamentos objetivos de desempenho. Em vez disso, elas se tornam uma forma de comportamento expressivo, onde os eleitores sinalizam sua lealdade política.

As respostas em pesquisas de opinião, por exemplo, podem ser “contaminadas” por essa torcida. Simpatizantes de um determinado partido ou governo tendem a avaliar melhor a gestão e a situação econômica quando se identificam politicamente com quem está no poder. Um estudo de Nunes e Traumann (2024) sobre as eleições de 2022 no Brasil ilustra bem: dois terços dos eleitores de Lula acreditavam que a economia havia piorado, enquanto apenas um em cada dez eleitores de Bolsonaro concordava com essa percepção. Esse viés, presente globalmente, é uma extensão do “efeito halo”, onde a percepção de características positivas de um político ou partido influencia a avaliação de seu desempenho geral.

Percepções econômicas: entre o pessoal e o nacional

A intensidade do partidarismo tem mostrado uma correlação direta com o aumento desse viés nas avaliações econômicas. Quanto mais forte a identificação partidária, maior a distorção na percepção. É crucial, contudo, diferenciar dois tipos de avaliação econômica: as sociotrópicas e as egotrópicas.

As avaliações sociotrópicas referem-se à percepção da “economia nacional” como um todo, enquanto as egotrópicas dizem respeito às “finanças pessoais” do eleitor. A pesquisa indica que o aumento do viés partidário é mais evidente nas avaliações sociotrópicas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a diferença entre democratas e republicanos na percepção de melhora econômica praticamente dobrou entre 1999 e 2020. No primeiro mandato de Donald Trump, essa diferença chegou a impressionantes 73%, demonstrando como a afiliação política pode moldar drasticamente a leitura da realidade econômica.

O eleitor independente e a memória de curto prazo

A implicação mais imediata desses achados é que o comportamento real da economia tende a perder importância relativa no voto. Consequentemente, a responsabilização por mau desempenho ou corrupção pode enfraquecer. Esse fenômeno se soma ao conhecido viés de disponibilidade, onde a heurística dá mais peso a informações recentes na tomada de decisão. Nos EUA, a performance econômica nos três anos anteriores de um mandato presidencial não importa tanto; apenas o último semestre ou ano é decisivo para o voto.

Entretanto, há outros fatores importantes. O grupo de eleitores independentes, aqueles sem uma torcida partidária definida, tem crescido no Brasil, espelhando uma tendência observada nos EUA, onde hoje representam a maior fatia do eleitorado. É nesse grupo que se encontram os eleitores voláteis, cujo voto não é pré-determinado por lealdades partidárias e, portanto, é onde a análise e as estratégias eleitorais devem focar. Estudos sobre comportamento eleitoral frequentemente destacam a complexidade de prever o voto desses segmentos.

Implicações para a responsabilização política e o futuro

A diminuição da correlação entre indicadores econômicos e a avaliação de desempenho governamental levanta questões cruciais sobre a saúde da democracia. Se a percepção econômica é tão permeada pelo partidarismo, a capacidade dos eleitores de responsabilizar seus líderes por resultados concretos pode ser comprometida. Isso não significa que a economia seja irrelevante, mas que sua influência é filtrada por uma camada de identificação política.

Para o Brasil, especialmente com as eleições de 2026 no horizonte, entender essa dinâmica é fundamental. Mesmo um candidato com avaliações negativas pode ser eleito se a “arquitetura da escolha” for favorável, ou seja, se o contexto político e as opções disponíveis permitirem. As campanhas eleitorais precisarão se adaptar a um cenário onde a narrativa e a lealdade podem ter um peso tão grande quanto, ou até maior, que os dados econômicos objetivos.

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