A crescente popularidade dos polvos, impulsionada por obras que destacam sua inteligência e complexidade comportamental, tem gerado um interesse global por esses fascinantes cefalópodes. Livros como “Outras Mentes”, do australiano Peter Godfrey-Smith, e documentários premiados como “Professor Polvo”, que narra a relação entre o cineasta Craig Foster e um polvo na África do Sul, cativaram o público e aprofundaram a percepção sobre a vida marinha.
Mais recentemente, a Netflix explorou o tema com “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes”, um melodrama ficcional que rendeu um Emmy à atriz Sally Field, onde um polvo-gigante-do-pacífico, Marcellus, é retratado com consciência e até mesmo sonhos. Essa representação, embora ficcional, reflete um debate científico real sobre a capacidade desses animais de experimentar estados de sono complexos, incluindo fases que se assemelham ao sono REM dos mamíferos.
Descoberta Pioneira da UFRN sobre o Sono de Polvos
A ciência, por sua vez, tem avançado na compreensão do sono dos polvos, confirmando que esses moluscos alternam fases de sono quieto e ativo. Uma descoberta fundamental nesse campo foi realizada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em um artigo publicado em 2021 no prestigiado periódico iScience, a equipe liderada por Sylvia Medeiros e orientada por Tatiana Leite e Sidarta Ribeiro, filmou polvos da espécie Octopus insularis adultos e quantificou os dois tipos de sono.
Durante a fase tranquila, que durava em média 415 segundos, o polvo permanecia pálido e relaxado. Já na fase ativa, com duração de cerca de 41 segundos, as cores da pele e sua textura mudavam rapidamente, e os olhos do animal se moviam. Essa observação estabeleceu uma clara analogia com o movimento rápido dos olhos (REM, em inglês) que caracteriza os sonhos em mamíferos, embora a ciência ainda não possa afirmar com certeza que os polvos estão fabulando experiências vívidas baseadas em memórias.
Omissão em Destaque: National Geographic e o Apagamento Científico
Apesar da relevância e do caráter pioneiro do estudo da UFRN, a pesquisadora Tatiana Leite teve uma surpresa desagradável ao visitar o National Geographic Museum of Exploration, em Washington, DC. Uma apresentação intitulada “Os Polvos Sonham?” mencionava apenas a bióloga australiana Alexandra Schnell, exploradora da NatGeo, omitindo a pesquisa brasileira. Curiosamente, a própria Schnell havia comentado o estudo da UFRN uma semana após sua publicação, reconhecendo sua importância.
O apagamento da contribuição brasileira se repetiu no documentário “Secrets of the Octopus”, também da National Geographic. Diante dessa constatação, Tatiana Leite enviou uma carta à National Geographic Society em 25 de agosto, solicitando a retificação da atribuição. Até o momento, a pesquisadora não recebeu resposta da instituição.
A Luta por Reconhecimento na Ciência Global
A situação levantada por Tatiana Leite ressalta um problema recorrente no cenário científico global: a dificuldade de descobertas provenientes da América Latina e de outras regiões fora dos grandes centros de pesquisa em obter a visibilidade e o reconhecimento adequados. A pesquisadora enfatizou que, quando uma organização de mídia internacional de grande influência apresenta uma descoberta sem identificar os cientistas que originalmente realizaram o trabalho, o registro histórico da contribuição científica é distorcido.
Essa omissão não apenas desvaloriza o esforço e a inovação de pesquisadores de países em desenvolvimento, mas também perpetua uma narrativa eurocêntrica ou ocidentalizada da ciência. O reconhecimento justo é fundamental para incentivar a pesquisa em diversas partes do mundo e para garantir que o conhecimento seja construído de forma equitativa e transparente. A luta por essa atribuição correta é, portanto, uma questão de justiça científica e de integridade histórica.
Para o leitor, entender essa dinâmica é crucial, pois ela afeta a forma como a ciência é percebida e valorizada globalmente, impactando desde o financiamento de pesquisas até a formação de novos talentos. Acompanhe o M1 Metrópole para mais análises aprofundadas sobre ciência, cultura e os debates que moldam a nossa sociedade, sempre com informação relevante e contextualizada.