A ascensão do etnoturismo como experiência transformadora
Em um cenário global onde o turismo de massa muitas vezes padroniza destinos e experiências, o etnoturismo surge como uma alternativa que valoriza a autenticidade e o respeito aos modos de vida tradicionais. No Brasil, essa modalidade tem ganhado força, sendo impulsionada pela busca dos viajantes por vivências que transcendam o ócio e promovam um contato real com a história e a cultura de povos originários, comunidades quilombolas e populações tradicionais.
Essa tendência não apenas atende a uma demanda por viagens mais responsáveis, mas também se consolidou como uma estratégia de promoção do país no exterior. Ao colocar o visitante em contato direto com tradições ancestrais, o etnoturismo inverte a lógica do consumo turístico convencional, transformando o viajante em um observador participante que valoriza a preservação cultural e ambiental.
A experiência na Terra Indígena Haliti Paresi
Localizada no norte de Mato Grosso, a Terra Indígena Haliti Paresi tornou-se um exemplo dessa nova organização. Desde o período da pandemia, a comunidade estruturou seu território para receber visitantes de forma regulamentada. O processo exige rigor, com a visitação integrada ao plano de gestão territorial e a necessária anuência da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).
A aldeia Katyalarekwa, uma das cinco abertas à visitação, adaptou sua infraestrutura para acolher os turistas sem descaracterizar o ambiente. A hospedagem ocorre em hatis, as habitações tradicionais do povo paresi. Para garantir o conforto básico, foram instalados colchões infláveis e roupas de cama, considerando que a região de chapada apresenta temperaturas baixas durante a noite. A estrutura conta ainda com banheiros dedicados aos visitantes, mantendo uma dinâmica similar à de albergues.
Logística e o desafio da sustentabilidade
A localização da aldeia, situada a cerca de 360 quilômetros de Cuiabá e a 110 quilômetros de Tangará da Serra, exige planejamento dos visitantes. Embora as estradas, majoritariamente utilizadas pelo agronegócio, estejam em boas condições, o trajeto final de 20 quilômetros em estrada de terra é acessível a carros de passeio, mas demanda cautela. A energia elétrica na comunidade é incipiente, o que torna o banho frio uma realidade comum, reforçando o caráter de imersão da experiência.
O modelo de visitação é viabilizado por parcerias, como a realizada com a agência Vivalá, especializada em turismo sustentável. O pacote completo, que inclui traslados, hospedagem e alimentação, custa R$ 3.980 por pessoa. Essa organização garante que a receita gerada contribua para a manutenção da aldeia e para a valorização do trabalho dos anfitriões indígenas, que conduzem atividades como contação de histórias, jogos tradicionais e aulas de idioma.
Conexão cultural e o futuro do turismo
Mais do que uma simples viagem, a proposta na terra dos Haliti Paresi é criar uma ponte de diálogo entre mundos distintos. A interação à beira da fogueira, o banho de rio e o aprendizado sobre a pintura corporal são elementos que compõem uma jornada de aprendizado profundo. Para o viajante, é a oportunidade de desconstruir preconceitos e entender a complexidade da vida indígena contemporânea.
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