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Rejeição em aplicativos de namoro online afeta homens gays afeminados no Brasil

Rejeição em aplicativos de namoro online afeta homens gays afeminados no Brasil
Karime Xavier - 15.set.26/Folhapress

A busca por conexões e relacionamentos no universo digital, mediada por aplicativos de namoro, revela uma realidade complexa e muitas vezes dolorosa para homens gays que se identificam como afeminados. Longe de ser um espaço de plena aceitação, essas plataformas se tornam palco para a manifestação de preconceitos e a valorização de padrões de masculinidade que ecoam as expectativas sociais mais amplas. A experiência de Matheus Daipre, de 28 anos, morador de Mairiporã (SP), ilustra bem essa dinâmica.

Matheus relata que, com frequência, é bloqueado em aplicativos como o Grindr após enviar um áudio, sendo sua voz interpretada como um sinal de afeminação. Essa rejeição não é um caso isolado, mas um reflexo de uma pressão social internalizada que o levou, inclusive, a tentar moldar seu comportamento. Antes de se assumir gay aos 19 anos, ele controlava gestos e a forma de dançar para parecer mais masculino. Mesmo após a aceitação de sua sexualidade, a necessidade de se adequar persistiu, dessa vez para se relacionar com outros homens.

A Rejeição de Traços Afeminados no Cenário Digital

A vivência de Matheus é um espelho de um fenômeno mais amplo, estudado por pesquisas acadêmicas que investigam a intensa valorização da masculinidade nas interações entre homens gays. A pressão para se encaixar em um ideal de masculinidade pode levar muitos a mascarar suas próprias características. Matheus confessa ter tentado simular uma postura mais masculina na esperança de atrair parceiros, uma tática que, embora dolorosa, é vista como um caminho para a aceitação.

Essa dinâmica não se restringe apenas ao comportamento verbal ou gestual. Ela se estende à construção da própria imagem online. Em 2020, o linguista João Carvalho de Souza Junior, em sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), analisou sua própria experiência no Grindr. Ele descreveu a insatisfação de ter que aparecer sem camisa e com o rosto cortado na foto do perfil para criar uma imagem que considerava mais atraente e, consequentemente, mais aceitável dentro dos padrões vigentes.

Padrões Sociais e a Construção do Desejo Masculino

Souza Junior argumenta que os usuários chegam aos aplicativos de namoro já imersos em um conjunto de ideias sociais sobre o que é considerado desejável: um homem percebido como másculo pela sociedade. Essa internalização é tão profunda que mesmo aqueles que desejam romper com esses padrões acabam cedendo a eles em busca de aceitação e conexão. A pesquisa acadêmica revela que a masculinidade, a saúde, a vida atlética, a riqueza, a branquitude, o tamanho do pênis, a posição social e certas profissões recebem maior valor no ambiente online.

O psiquiatra Adilon Harley Machado, especialista em psicologia analítica e corporal, aprofunda essa análise ao explicar que a lógica da masculinidade compulsória se inicia na infância. Meninos aprendem a ser masculinos pela negação do que é associado ao feminino, abrangendo desde a escolha de brinquedos e a expressão da sensibilidade até a maneira de se portar e os aspectos de higiene. Segundo Machado, essa construção não se relaciona intrinsecamente com a formação do homem, mas sim com uma resistência e contraposição ao que se espera de uma mulher.

A Influência da Cultura e Mídia na Percepção de Valor

Esse aprendizado social molda o desejo de homens gays, que formam seus interesses a partir do contato e da convivência. Machado aponta que, ao serem expostos predominantemente a um único modelo de corpo, aparência e estrutura de pensamento, constrói-se um “eurocentrismo dos desejos e dos afetos”. Isso significa que padrões estéticos e comportamentais eurocêntricos e heteronormativos acabam sendo replicados e valorizados dentro da própria comunidade gay, marginalizando aqueles que não se encaixam.

A influência das redes sociais, da publicidade e da pornografia é crucial nesse processo, pois esses meios frequentemente reproduzem e reforçam padrões de gênero e de dominação masculina. Essa reprodução de ideais de masculinidade hegemônica, que desvaloriza traços femininos, está intrinsecamente ligada à posição social atribuída às mulheres na sociedade. A psicóloga consultada na pesquisa sugere que tentar mudar características pessoais para ser aceito pode dificultar a construção de uma identidade positiva e autêntica, impactando diretamente a saúde mental e a autoestima dos indivíduos.

Para aqueles que buscam compreender melhor as complexidades da masculinidade e sua intersecção com a homossexualidade, diversos estudos acadêmicos oferecem insights valiosos sobre o tema. Um exemplo pode ser encontrado em pesquisas publicadas em periódicos especializados, como os disponíveis em plataformas como a Scielo, que abordam a construção social do gênero e da sexualidade em diferentes contextos (veja um exemplo de estudo aqui).

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