O processo de tratamento médico para a terceira idade enfrenta um dilema persistente: a inércia na revisão de terapias medicamentosas. Frequentemente, após estudos científicos demonstrarem que determinados fármacos oferecem mais riscos do que benefícios para pacientes idosos, as diretrizes clínicas são atualizadas, mas a prática cotidiana nos consultórios demora a acompanhar essas evidências. Esse fenômeno, comparado por especialistas a “cracas” que se fixam em um navio, torna a interrupção de tratamentos obsoletos um desafio complexo para a saúde pública.
A cultura da prescrição e o peso do hábito
A resistência em alterar esquemas terapêuticos não é apenas uma falha de comunicação científica, mas um reflexo de hábitos enraizados. Profissionais de saúde, sobrecarregados por um fluxo constante de novas informações, muitas vezes mantêm prescrições por segurança ou costume. Segundo Michael Steinman, geriatra da Universidade da Califórnia em São Francisco, a dificuldade em encontrar abordagens alternativas faz com que médicos e pacientes optem por manter o que já conhecem, mesmo quando novas diretrizes, como os Critérios de Beers, sugerem cautela.
O risco persistente dos benzodiazepínicos
Os benzodiazepínicos e os chamados medicamentos “Z” ilustram bem essa problemática. Utilizados há décadas para tratar ansiedade e insônia, esses fármacos trazem riscos significativos para idosos, incluindo prejuízos ao equilíbrio, cognição e coordenação motora, fatores que elevam drasticamente a probabilidade de quedas e fraturas. Além disso, a dependência química é um efeito colateral comum e preocupante.
Dados recentes publicados no periódico Annals of Internal Medicine mostram um cenário misto. Embora o uso geral entre pessoas acima de 65 anos tenha caído de 14% em 2015 para 11,5% em 2024, a tendência de queda estagnou. Mais alarmante ainda é o aumento do consumo entre indivíduos com mais de 75 anos e a alta prevalência em instituições de longa permanência. Especialistas reforçam que a interrupção nunca deve ser abrupta, exigindo um plano de redução gradual supervisionado por médicos para evitar crises de abstinência.
Antibióticos na diverticulite: a mudança de paradigma
Outro exemplo clássico de mudança de conduta é o tratamento da diverticulite não complicada. Durante anos, a prescrição de antibióticos era considerada um procedimento padrão e inquestionável. No entanto, evidências clínicas robustas, a partir de 2015, demonstraram que o uso desses fármacos não alterava significativamente a evolução da doença, a mortalidade ou o risco de complicações.
A manutenção do uso desnecessário de antibióticos traz prejuízos claros, como náuseas, vômitos e o risco de infecções graves por C. difficile. Além disso, o uso indiscriminado contribui para a resistência antimicrobiana, um problema de saúde global. A transição para uma medicina mais conservadora, que prioriza o bem-estar do paciente e evita intervenções desnecessárias, é o caminho defendido por pesquisadores como Jesse Sutton para mitigar os danos causados pela polifarmácia.
O M1 Metrópole segue acompanhando as atualizações nas diretrizes de saúde e o impacto das políticas públicas no bem-estar da população. Continue conosco para entender como a ciência e a prática clínica moldam o cuidado com a saúde em todas as fases da vida.