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A dieta BRAT é eficaz para gastroenterite? Especialistas revisam recomendações

A dieta BRAT é eficaz para gastroenterite? Especialistas revisam recomendações
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A dieta BRAT, um acrônimo para Banana, Rice (arroz), Applesauce (purê de maçã) e Toast (torradas), tem sido por décadas uma recomendação popular para aliviar os sintomas de problemas gastrointestinais, como diarreia e náuseas. No entanto, a crença de que esse regime alimentar acelera a recuperação de uma gastroenterite tem sido questionada por especialistas da área da saúde, que apontam para a falta de evidências científicas robustas que a sustentem. Em um cenário onde surtos de doenças como a ciclosporíase destacam a importância de um manejo adequado do desconforto gastrointestinal, compreender as abordagens mais eficazes torna-se crucial.

Historicamente, a dieta BRAT ganhou popularidade como uma solução simples e acessível para quadros de virose gastrointestinal. Sua composição, à base de alimentos leves e de fácil digestão, parecia intuitivamente benéfica para estômagos sensíveis. Contudo, a medicina moderna, pautada em pesquisas e evidências, tem reavaliado essa prática, sugerindo que, embora possa oferecer um conforto inicial, a manutenção prolongada dessa dieta pode, na verdade, prejudicar o processo de cura.

A tradição da dieta BRAT e sua origem

Desenvolvida no início do século 20, a dieta BRAT foi inicialmente concebida para crianças que sofriam de diarreia. A premissa era que a ingestão de alimentos de baixo teor de fibras e gordura reduziria o número de evacuações e, consequentemente, a perda de líquidos. Os alimentos que compõem a dieta – banana, arroz, purê de maçã e torradas – eram escolhidos por serem baratos, amplamente disponíveis e geralmente palatáveis para pessoas com dificuldade em reter alimentos no estômago.

Tamara Hannon, presidente do Comitê de Nutrição da Academia Americana de Pediatria, relembra que, em sua formação em pediatria, a dieta BRAT era a primeira recomendação para pacientes com diarreia. Essa prática rapidamente se tornou um pilar no tratamento de problemas gastrointestinais, tanto em ambientes domésticos quanto hospitalares, para crianças e adultos.

A reviravolta científica: falta de evidências e riscos nutricionais no tratamento da gastroenterite

Apesar de sua popularidade, a dieta BRAT nunca foi solidamente respaldada por evidências científicas. Na década de 1990, a Academia Americana de Pediatria revisou suas diretrizes e deixou de recomendá-la. Pesquisadores constataram que a dieta não apenas não acelerava a recuperação dos pacientes, como também, se seguida por mais de um ou dois dias, poderia comprometer a capacidade do organismo de combater a doença.

O principal problema reside na insuficiência nutricional da dieta. Infecções gastrointestinais danificam as células que revestem o intestino e desequilibram a flora bacteriana benéfica. Para restaurar essas células e o equilíbrio intestinal, o corpo necessita de uma gama completa de nutrientes: proteínas, gorduras, vitaminas e minerais. A dieta BRAT, por ser extremamente restritiva, é deficiente em muitos desses componentes essenciais.

Debora Duro, gastroenterologista pediátrica do Nicklaus Children’s Hospital, em Miami, enfatiza que essa deficiência é particularmente problemática para crianças, cujos organismos em crescimento possuem necessidades nutricionais mais rigorosas. Um estudo de 2007, do qual Duro foi coautora, estimou que uma criança pequena seguindo a dieta BRAT receberia quantidades significativamente menores de cálcio e das vitaminas A e B12 do que o recomendado. “Essa dieta nunca deve ser mantida por mais de 24 horas após o primeiro episódio de diarreia”, alerta a médica.

Um ensaio clínico de 2019, apresentado à Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica, comparou 95 crianças com diarreia que receberam a dieta BRAT com outras que tiveram alimentação normal. Os resultados não mostraram diferença no número de evacuações ou no tempo de recuperação entre os grupos, reforçando a falta de eficácia da dieta restritiva.

Prioridades atuais: hidratação, eletrólitos e alimentação balanceada

Diante das evidências, os médicos atualmente priorizam outras estratégias para o manejo da gastroenterite. A primeira e mais importante é a hidratação e a reposição de eletrólitos. A gastroenterite compromete a capacidade do sistema digestivo de absorver água e minerais essenciais, tornando fundamental a ingestão de soluções de reidratação oral, como Pedialyte ou suas versões genéricas.

Shruti Gohil, médica especializada em doenças infecciosas da UCI Health, em Irvine, Califórnia, explica que, embora não haja problema em consumir alimentos leves no primeiro dia se houver dificuldade em mantê-los no estômago, o ideal é retomar uma alimentação normal o mais rapidamente possível. Essa alimentação deve incluir proteínas, essenciais para a reconstrução das células intestinais danificadas, e fibras, que contribuem para a recuperação das bactérias benéficas.

A recomendação é clara: se a náusea e a diarreia dificultarem a ingestão de alimentos variados, é aceitável começar com opções mais brandas, incluindo aquelas da dieta BRAT. No entanto, é crucial adicionar outros alimentos à medida que o apetite e a tolerância melhoram. Por exemplo, uma banana fatiada sobre uma torrada com uma fina camada de pasta de amendoim pode fornecer proteínas, gorduras e fibras adicionais, tornando a refeição mais nutritiva e completa para a recuperação.

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