O Ministério da Saúde anunciou um passo significativo na luta contra o HIV no Brasil, confirmando um acordo para a aquisição do cabotegravir, um medicamento antirretroviral injetável de longa duração destinado à profilaxia pré-exposição (PrEP). O anúncio foi feito pelo ministro Alexandre Padilha durante a conferência internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro, e representa um avanço potencial na estratégia de prevenção do Sistema Único de Saúde (SUS).
A PrEP injetável, que promete maior adesão e eficácia, será submetida na próxima semana à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). A expectativa do governo é que, uma vez aprovada, a nova tecnologia esteja disponível para pacientes brasileiros ainda neste ano, marcando uma nova fase na abordagem da saúde pública em relação ao HIV.
PrEP injetável: uma nova era na prevenção do HIV
O cabotegravir, desenvolvido pela ViiV Healthcare, empresa majoritariamente controlada pela GSK, oferece uma alternativa substancialmente mais prática à PrEP oral diária. Enquanto a prevenção usual exige a ingestão de comprimidos todos os dias, a versão injetável é aplicada a cada dois meses, o que pode revolucionar a adesão ao tratamento e, consequentemente, a eficácia da prevenção.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já havia aprovado o cabotegravir em 2023, e o medicamento começou a ser comercializado no mercado privado em agosto do ano passado. Atualmente, seu preço de tabela no Brasil chega a R$ 4.000, um valor que ressalta a importância da incorporação pelo SUS para garantir o acesso amplo e equitativo à população que mais precisa.
Negociação e acesso no Sistema Único de Saúde
Os detalhes financeiros do acordo ainda estão sendo finalizados. Embora o ministro Alexandre Padilha não tenha confirmado publicamente o valor de US$ 400 (equivalente a R$ 2.032 na cotação atual) por dose, que circulava nos bastidores da conferência, ele indicou que o teto que o governo brasileiro está disposto a pagar equivale a no máximo 10 a 12 vezes o valor oferecido a países como Indonésia e Tailândia, que é de US$ 40 por dose. Essa margem de negociação aproxima a conta do valor especulado, mas ainda mantém a flexibilidade para o governo buscar as melhores condições.
O número exato de doses a serem adquiridas inicialmente também permanece em aberto, dependendo da continuidade das negociações com o laboratório. A incorporação pela Conitec é um passo crucial, pois garante que a tecnologia seja avaliada sob a ótica da custo-efetividade e da relevância para a saúde pública antes de ser oficialmente incluída nos protocolos do SUS. Este processo assegura que os recursos públicos sejam investidos em inovações que realmente tragam benefícios significativos à população.
Avanços e desafios na resposta brasileira à Aids
O anúncio da PrEP injetável veio acompanhado de um balanço positivo sobre a resposta brasileira à Aids. Segundo Padilha, o país registrou em 2024 a maior redução na taxa de mortalidade por Aids de sua história, com o número de óbitos pela primeira vez abaixo de 10 mil. Esse resultado é atribuído a uma série de medidas bem-sucedidas implementadas nos últimos anos.
Entre os fatores que contribuíram para essa melhora, destacam-se a ampliação de 150% na oferta de medicamentos de PrEP pelo SUS e o aumento de 100% nos exames de testagem rápida nos últimos três anos. Essas ações permitiram identificar novas infecções e iniciar o tratamento de forma mais ágil. Atualmente, 22% das pessoas diagnosticadas com HIV no Brasil começam o tratamento no mesmo dia da confirmação, e mais da metade inicia em até 30 dias, um indicador de agilidade e eficiência do sistema.
Apesar dos avanços, o ministro listou três obstáculos persistentes na resposta brasileira à epidemia: a discriminação e o estigma contra pessoas vivendo com HIV, frequentemente alimentados por movimentos internacionais que atacam os direitos humanos dessa população; o negacionismo científico e a desinformação em saúde; e o acesso a novas tecnologias. Padilha enfatizou que “Inovação sem acesso não deveria ser chamada de inovação. Inovação sem acesso é injustiça”, reforçando o compromisso do governo em democratizar o acesso a tratamentos e prevenções.
Além disso, foi anunciado um novo programa de financiamento para acelerar o acesso a exames de imagem e outros procedimentos mais complexos, como órteses e próteses, associados a comorbidades de pessoas vivendo com HIV. Essa iniciativa visa aprimorar a qualidade de vida e o cuidado integral desses pacientes, abordando necessidades que vão além do tratamento antiviral direto.
A incorporação da PrEP injetável no SUS representa um marco na política de saúde brasileira, oferecendo uma ferramenta poderosa para a prevenção do HIV e reforçando o compromisso do país com a inovação e o acesso à saúde. Para continuar acompanhando as notícias mais relevantes e contextualizadas sobre saúde, política e outros temas essenciais, acesse o M1 Metrópole. Nosso portal está sempre atualizado, trazendo informação de qualidade para você.