PUBLICIDADE

Trabalho para pessoas com mais de 60 anos cresce 53% em uma década, mas informalidade preocupa

© Marcelo Camargo/Arquivo/Agência Brasil
© Marcelo Camargo/Arquivo/Agência Brasil

O mercado de trabalho brasileiro tem testemunhado uma transformação notável na última década, com um aumento expressivo na participação de pessoas com 60 anos ou mais. Dados recentes revelam que a ocupação para este grupo etário disparou 53% em dez anos, um ritmo que supera significativamente o crescimento da população geral e até mesmo o dos jovens. No entanto, essa expansão vem acompanhada de um alerta preocupante: a crescente informalidade, que deixa muitos trabalhadores sem a devida proteção e direitos.

A constatação, parte de um estudo divulgado esta semana pela empresa de pesquisa e inteligência de dados Nexus, aponta para um cenário complexo. Enquanto a longevidade e a capacidade ativa de trabalho dos idosos são motivos para celebrar, a precarização das condições de emprego para essa faixa etária levanta questões cruciais sobre o futuro da aposentadoria e a sustentabilidade econômica do país.

O trabalho idoso no contexto do envelhecimento populacional

Entre 2016 e 2025, a população brasileira com 60 anos ou mais cresceu 37%, passando de 25,8 milhões para 35,2 milhões de pessoas, representando 17% do total. No mesmo período, o contingente de trabalhadores nessa faixa etária saltou de 5,7 milhões para quase 8,8 milhões. Isso significa que o emprego para os idosos cresceu em um ritmo mais acelerado do que o próprio envelhecimento da população, com uma em cada quatro pessoas 60+ ocupadas ao fim de 2025, a maior taxa dos últimos dez anos.

Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, descreve esse cenário como um “copo meio cheio, meio vazio”. Ele reconhece a vitalidade e a capacidade produtiva dos mais velhos, mas expressa preocupação com a precarização de um período da vida que, em tese, deveria ser dedicado ao descanso. “A pessoa que tem 75 anos de idade que, em tese, já deveria estar gozando da sua aposentadoria e muitas vezes precisa continuar trabalhando provavelmente para complementar a sua renda”, comenta Tokarski, em entrevista à Agência Brasil.

Reforma da Previdência e a busca por renda

Um dos fatores que podem explicar o aumento da presença de pessoas com mais de 60 anos no mercado de trabalho é a reforma da Previdência, implementada em 2019. As mudanças nas regras de aposentadoria, que elevaram a idade mínima e o tempo de contribuição, forçaram muitos brasileiros a permanecerem ativos por mais tempo.

Para as mulheres, a idade mínima para aposentadoria passou a ser de 62 anos, com 15 anos de contribuição. Para os homens, 65 anos de idade e 20 anos de contribuição. Antes da reforma, mulheres podiam se aposentar com 60 anos e não havia idade mínima para aposentadoria por tempo de contribuição para nenhum dos sexos. Essa alteração impactou diretamente o planejamento de vida de milhões de trabalhadores, que se veem na necessidade de estender sua jornada profissional para garantir uma renda adequada.

Informalidade: o desafio crescente para os 60+

O estudo da Nexus, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que a informalidade é uma realidade para mais da metade (53%) dos trabalhadores com 60 anos ou mais. Este índice é significativamente superior ao da população geral (38%) e até mesmo ao dos jovens de 18 a 24 anos (41%).

A informalidade, que inclui empregados sem carteira assinada e autônomos sem CNPJ, priva esses trabalhadores de direitos fundamentais como férias remuneradas, décimo terceiro salário e contribuição para a Previdência Social. Marcelo Tokarski enfatiza que essa é uma característica estrutural do emprego para os 60+, indicando uma clara precarização. “Um público que não pode se dar ao luxo de permanecer desocupado. Enquanto o jovem, muitas vezes, consegue focar nos estudos ou prolongar a busca pela vaga ideal, o 60+ migra rapidamente para a informalidade”, analisa.

Perspectivas e o caminho para a inclusão geracional

A pesquisa conclui que a sustentabilidade econômica do Brasil depende agora de políticas públicas robustas que incentivem a formalização e de uma revisão urgente das estruturas corporativas. É fundamental que as empresas considerem a ergonomia, os benefícios e a inclusão geracional para acolher e valorizar a experiência dos trabalhadores mais velhos.

O aumento da participação dos idosos no mercado de trabalho é um reflexo das mudanças demográficas e econômicas do país. Garantir que essa participação ocorra de forma digna e com direitos assegurados é um desafio que exige a atenção e o engajamento de governos, empresas e da sociedade como um todo. A discussão sobre a “economia prateada” e o envelhecimento ativo precisa ir além dos números e focar na qualidade de vida e no bem-estar desses trabalhadores essenciais.

Para se manter atualizado sobre as transformações no mercado de trabalho e outros temas relevantes, continue acompanhando o M1 Metrópole. Nosso portal oferece informação de qualidade, análises aprofundadas e contexto essencial para você entender os fatos que impactam sua vida e a sociedade.

Leia mais

PUBLICIDADE