Um estudo recente da Agência Lupa, divulgado nesta segunda-feira, 27 de julho de 2026, lança luz sobre a alarmante prevalência da desinformação no cenário político brasileiro. A pesquisa aponta que somente um terço (34%) das declarações feitas por políticos nos últimos cinco ciclos eleitorais, e que foram submetidas a checagem, eram totalmente verídicas. As demais, uma maioria significativa, continham algum nível de distorção, seja por exagero, omissão ou falsidade.
Essa constatação, detalhada no relatório “Anatomia da Desinformação Eleitoral — Como a Mentira e os Boatos Políticos Evoluíram no Brasil entre 2016 e 2026”, sugere uma evolução nas táticas de desinformação. Em vez de se apoiarem em mentiras explícitas, os atores políticos têm aprimorado suas estratégias, recorrendo cada vez mais à manipulação de fatos e conteúdos que, em sua essência, poderiam ser verdadeiros. Este fenômeno é classificado como “má informação”, um desafio crescente para a integridade do debate público.
A Sofisticação da Desinformação no Discurso Político
O relatório da Lupa destaca que a “má informação” se manifesta de diversas formas. São “cada vez mais frequentes omissões intencionais, exageros, recortes seletivos, comparações inadequadas e disputas de contexto”. Essa abordagem mais sutil torna a detecção da falsidade mais complexa, pois o discurso não se baseia em fatos inventados, mas sim na distorção ou na costura enganosa de informações reais para induzir interpretações equivocadas.
Essa sofisticação representa um desafio significativo para o jornalismo de checagem e para a própria capacidade do eleitor de discernir a verdade. A linha entre o que é factual e o que é manipulado torna-se tênue, exigindo um olhar mais crítico e ferramentas mais robustas para desvendar as intenções por trás das declarações políticas. A erosão da confiança nas instituições e nos processos democráticos é uma das consequências diretas dessa prática.
Radiografia da Desinformação: A Metodologia da Lupa
Para chegar a essas conclusões, a Agência Lupa analisou um vasto conjunto de dados: 3.080 declarações de 237 atores políticos, provenientes de 37 diferentes partidos, abrangendo os ciclos eleitorais de 2016 a 2026. A amostra focou principalmente em candidatos à Presidência, a governos estaduais e a prefeituras, cujos discursos foram coletados de uma variedade de fontes, incluindo redes sociais, debates televisivos, propagandas eleitorais e sites oficiais.
É importante ressaltar que a amostra do estudo reflete os conteúdos publicados na seção de “Eleições” do site da Lupa, estando, portanto, condicionada às escolhas editoriais da agência, seus critérios de relevância jornalística e seus fluxos de recebimento e monitoramento de informações. Apesar dessa delimitação, o levantamento oferece um panorama robusto e preocupante sobre a qualidade do discurso político no Brasil.
Quem Desinforma Mais? Perfis e Tendências
O estudo também apresenta um ranking dos políticos com maior proporção de falas falsas checadas, considerando apenas aqueles que tiveram, no mínimo, 30 frases analisadas. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) lidera essa lista, com 43,2% de suas declarações verificadas como falsas. Em seguida, aparecem o ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, com 38,9%, e o ex-prefeito do Rio, Marcelo Crivella, com 36,2%.
Contrariando a percepção comum de que a desinformação seria um fenômeno exclusivo de um único espectro político, o levantamento da Lupa inclui nomes de esquerda e centro-esquerda. A ex-deputada federal Manuela d’Ávila (PSOL) figura em 6º lugar, com 29% de declarações falsas, enquanto o presidente Lula (PT) aparece em 7º, com 26%, ou seja, uma em cada quatro declarações checadas. Esse dado “derruba a hipótese comumente ventilada no Brasil de que só a direita desinforma”, conforme aponta o relatório.
O estudo ainda observa que, ao distorcer informações em público, Lula e Bolsonaro demonstram estilos distintos. Enquanto o presidente Lula tende a atribuir a si mesmo a autoria ou o pioneirismo de políticas públicas e marcos institucionais que nem sempre tiveram origem em seus governos, o ex-presidente Bolsonaro costumava declarar falsidades de natureza mais direta, abordando temas específicos com afirmações que não se sustentavam nos fatos.
Implicações para a Democracia e o Eleitor
A predominância da “má informação” e a baixa veracidade das declarações políticas têm implicações profundas para a saúde democrática. A dificuldade em distinguir o que é fato do que é manipulação pode levar a decisões eleitorais menos informadas, à polarização exacerbada e à desconfiança generalizada nas instituições. Em um cenário onde a informação é abundante, mas a verdade é escassa, o papel da imprensa e das agências de checagem torna-se ainda mais vital para a manutenção de um debate público saudável e transparente.
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