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Vacina contra HPV: estudo brasileiro comprova proteção coletiva e eficácia da dose única

Vacina contra HPV: estudo brasileiro comprova proteção coletiva e eficácia da dose única
Marcelo Pereira/Secom

Uma pesquisa brasileira de grande escala trouxe resultados promissores para a saúde pública, especialmente no combate ao Papilomavírus Humano (HPV). O estudo inédito revelou que a vacinação contra o HPV não apenas protege diretamente os imunizados, mas também é capaz de reduzir a circulação do vírus entre mulheres que nunca receberam a vacina, um fenômeno conhecido como proteção coletiva ou imunidade de rebanho. Além disso, a investigação confirmou que uma única dose do imunizante oferece a mesma proteção que os esquemas de duas ou três doses, um achado com implicações significativas para as estratégias de vacinação no país.

Os dados, que representam a maior pesquisa sobre o impacto populacional da vacina na América Latina, reforçam a importância das campanhas de imunização e validam a recente decisão do Ministério da Saúde de adotar o esquema de dose única no Brasil. A compreensão desses mecanismos é crucial para otimizar a cobertura vacinal e, consequentemente, diminuir a incidência de doenças relacionadas ao HPV, como o câncer de colo do útero.

O impacto da vacinação na prevalência do vírus

O estudo, batizado de POP-Brasil, foi conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde e comparou informações de mais de 16 mil brasileiros com idades entre 16 e 25 anos. Os dados foram coletados em duas grandes pesquisas nacionais, uma realizada entre 2016 e 2017, logo após a introdução da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS), e outra entre 2020 e 2023. Os resultados completos serão publicados na prestigiada revista científica npj Vaccines, do grupo Nature.

Entre as mulheres que receberam a vacina, a redução na prevalência dos tipos de HPV cobertos pelo imunizante foi notável, caindo 81% em comparação com o período anterior à vacinação (de 15,6% para 3,1%). Contudo, o achado que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o impacto populacional: mesmo entre as mulheres que nunca foram vacinadas, houve uma queda de 33% na circulação desses tipos de HPV. Esse efeito indireto de proteção coletiva é um indicativo claro da eficácia da vacinação em massa.

Eliana Wendland, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento e autora principal do estudo, explica que o mecanismo por trás desse fenômeno é relativamente simples. “Isso se explica pela quantidade de vírus circulante. Quando eu tenho menos vírus circulante, eu tenho menos contatos e, portanto, eu começo a diminuir as taxas de prevalência na população em geral”, afirma. Essa dinâmica demonstra como a alta cobertura vacinal em um grupo pode beneficiar toda a comunidade.

Desafios e diferenças na proteção coletiva

Apesar dos resultados positivos, o estudo também apontou desafios importantes. O efeito coletivo da vacinação, por exemplo, foi observado apenas entre as mulheres. Nos homens, onde a cobertura vacinal no Brasil é significativamente menor, o fenômeno da proteção indireta não se repetiu. Isso sublinha a necessidade de intensificar as campanhas de imunização para o público masculino, garantindo uma proteção mais abrangente para toda a população.

A proteção coletiva também mostrou dependência da faixa etária, sendo mais visível até os 20-21 anos, período que coincide com as maiores coberturas vacinais. Em faixas etárias subsequentes, o efeito tende a desaparecer, indicando que a manutenção de altas taxas de vacinação em todas as idades elegíveis é fundamental para sustentar a imunidade de rebanho. A pesquisa ainda destacou gargalos na cobertura entre meninos e a existência de desigualdades regionais na adesão à vacina, pontos críticos para futuras intervenções do Ministério da Saúde.

A eficácia da dose única e o avanço da política de saúde

Um dos achados com maior potencial prático para a política de saúde pública é a confirmação de que uma única dose da vacina contra o HPV oferece a mesma efetividade que os esquemas de duas ou três doses. “A efetividade foi a mesma”, ressalta Wendland. Este resultado reforça a decisão já tomada pelo Ministério da Saúde, que em 2024 migrou o esquema vacinal brasileiro para dose única. Essa mudança já vinha sendo respaldada por evidências internacionais, como as da Organização Mundial da Saúde (OMS), que acompanhou grandes estudos por mais de uma década antes de recomendar a dose única.

Ana Goretti Maranhão, do Departamento do Programa Nacional de Imunizações, destaca a importância desse dado para o contexto nacional. “Esse é o primeiro que a gente tem aqui no país”, afirma, referindo-se à validação local da eficácia da dose única. A simplificação do esquema vacinal para uma única aplicação tende a melhorar significativamente a adesão da população, uma vez que historicamente a procura pela primeira dose sempre foi maior do que o retorno para as doses subsequentes.

É importante ressaltar que, apesar da eficácia da dose única para a maioria, grupos específicos ainda seguem um esquema diferenciado. Pessoas com HIV, imunossuprimidos e aqueles que já tiveram lesões de alto grau ou câncer de colo do útero continuam com a recomendação de três doses, garantindo a proteção adequada para indivíduos com sistemas imunológicos comprometidos ou histórico de doença.

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