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Crise da Cobrasma: o diálogo de Luís Eulálio Vidigal com a imprensa em tempos de turbulência

Crise da Cobrasma: o diálogo de Luís Eulálio Vidigal com a imprensa em tempos de turbulência

A recente notícia do falecimento de Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, aos 87 anos, vítima de doença renal crônica, reacende a memória de um dos episódios mais emblemáticos da economia brasileira dos anos 1980: a crise da Cobrasma. Vidigal, figura proeminente como presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e dirigente da Companhia Brasileira de Material Ferroviário, protagonizou um diálogo singular com o jornalista Frederico Vasconcelos, então editor do Painel Econômico da Folha de S.Paulo, em um período de grande instabilidade econômica e incerteza no mercado financeiro nacional.

Este relacionamento, marcado por cordialidade e transparência incomuns para a época, oferece uma janela para entender não apenas os desafios enfrentados pelas grandes empresas brasileiras sob o Plano Cruzado, mas também a complexa interação entre o poder econômico, a imprensa e o sistema judiciário em um Brasil em transição. A história da Cobrasma, com suas projeções otimistas que se transformaram em um prejuízo bilionário, é um estudo de caso sobre os riscos do mercado e a importância da fiscalização em um cenário de intervenção estatal.

A reviravolta financeira da Cobrasma e o impacto do Plano Cruzado

Em 1986, o Brasil vivia sob o impacto do Plano Cruzado, uma tentativa do governo de controlar a inflação através do congelamento de preços. Nesse contexto, a Cobrasma, uma das maiores empresas do setor de material ferroviário, havia realizado seis meses antes uma das maiores emissões de ações da história, colocando 25,5 bilhões de ações no mercado. As projeções eram otimistas, baseadas na expectativa de correção de preços de seus produtos, supostamente criadas por “fontes autorizadas do governo” e garantidas por bancos de peso como Bradesco, Crefisul e BCN.

No entanto, o que o mercado temia se confirmou no último dia daquele ano, quando a empresa publicou uma discreta nota na Gazeta Mercantil. A estimativa de resultado para 1986 foi drasticamente alterada: de um lucro projetado de R$ 50,4 milhões para um prejuízo equivalente a cerca de R$ 66 milhões (valores atualizados). Essa reviravolta pegou de surpresa não apenas os três bancos garantidores, mas também outras 124 instituições financeiras e milhares de pequenos e médios investidores que haviam apostado nas ações da companhia. A economia de preços congelados e as promessas não cumpridas de correção governamental foram apontadas como as raízes da derrocada.

O diálogo de Luís Eulálio Vidigal com a imprensa

A revelação da nota da Cobrasma por Frederico Vasconcelos desencadeou uma série de eventos que testaram os limites da relação entre empresários e jornalistas. Após identificar a nota, Vasconcelos buscou esclarecimentos junto a um técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e ao diretor financeiro da Cobrasma, Ércio Pinto Tavares. Este último expressou a frustração dos aplicadores, mas defendeu a empresa, atribuindo o revés a “um ano errado, um azar desgraçado”.

O ponto de virada ocorreu quando, após tentativas infrutíferas de contato, Vasconcelos enviou um ofício à Cobrasma informando sobre uma nova reportagem. Meia hora depois, Vidigal telefonou ao colunista, propondo um acordo: ele seria procurado diretamente antes da publicação de fatos sobre a empresa, fornecendo seus telefones pessoais e até o de sua fazenda. Esse pacto de confiança e acesso direto se mostrou crucial anos depois, em março de 1991, quando Vidigal ligou para Vasconcelos para avisar, em primeira mão, que a Cobrasma entraria com pedido de concordata no final da tarde, atribuindo as dificuldades ao “caos da economia nacional” e à “orientação vacilante e contraditória” do governo.

Batalhas legais e a sombra da Operação Anaconda

A crise da Cobrasma não se limitou ao campo financeiro e jornalístico; ela se desdobrou em complexas batalhas legais. Em 1987, o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, um órgão paritário, derrubou multas milionárias que haviam sido aplicadas pela CVM à empresa. Vidigal chegou a ser denunciado por crime contra o sistema financeiro nacional, mas o então juiz federal João Carlos da Rocha Mattos rejeitou a denúncia, considerando-a inepta por não incluir os dirigentes dos bancos envolvidos.

Curiosamente, anos mais tarde, tanto o procurador da República Antônio Augusto César, que perdeu o prazo para recorrer da decisão favorável a Vidigal, quanto o juiz Rocha Mattos, foram investigados na Operação Anaconda, em 2003. Essa operação desbaratou uma quadrilha que negociava decisões na Justiça Federal, levando à prisão de Rocha Mattos. Esse contexto posterior lança uma luz sobre as fragilidades e os desafios éticos do sistema judicial brasileiro da época, adicionando uma camada de complexidade à já intrincada história da Cobrasma.

O legado de um líder e as lições da crise

Luís Eulálio Vidigal, além de sua atuação na Cobrasma e na Fiesp, era conhecido por uma franqueza que, por vezes, beirava a autodepreciação. Em um episódio marcante, ao ser indicado para o Conselho Monetário Nacional por Mario Henrique Simonsen, então ministro do Planejamento, Vidigal teria respondido: “Mario, não sei se sou ilibado ou não. Mas notório saber econômico, definitivamente não tenho”. Essa e outras declarações, como a resposta a provocações após a primeira reportagem de Vasconcelos — “Diga ao Fred que eu posso não ser inteligente, mas burro eu não sou. Eu não faria isso” —, revelam um personagem multifacetado, consciente de sua posição e das percepções públicas.

A história da Crise da Cobrasma, detalhada no livro “Anatomia da Reportagem” de Frederico Vasconcelos, permanece como um marco na história econômica e jornalística do Brasil. Ela sublinha a importância da transparência corporativa, a vigilância do mercado financeiro e o papel insubstituível da imprensa na fiscalização do poder, seja ele público ou privado. A saga de Vidigal e da Cobrasma é um lembrete vívido dos perigos da intervenção estatal excessiva e da necessidade de um ambiente de negócios previsível e justo para a saúde econômica do país.

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