Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) acende um alerta sobre a vulnerabilidade de mulheres grávidas e mães de bebês pequenos à violência psicológica praticada por parceiros ou ex-parceiros. A pesquisa, que analisou dados de mais de 26 mil mulheres em todo o Brasil, revela que essa parcela da população feminina tem quase o dobro de chances de ser vítima desse tipo de abuso em comparação com mulheres sem filhos, evidenciando um problema de saúde pública que exige atenção urgente.
Os resultados, publicados no renomado periódico científico Journal of Interpersonal Violence, trazem à tona a dimensão do sofrimento emocional enfrentado por muitas mulheres durante um dos períodos mais delicados de suas vidas. A descoberta sublinha a necessidade de estratégias de prevenção e acolhimento mais eficazes, especialmente voltadas para o ciclo gravídico-puerperal.
A vulnerabilidade da gestação e do pós-parto
O levantamento da FMUSP detalha que mulheres grávidas ou mães de bebês com até 18 meses de idade apresentam um risco 94% maior de sofrer violência psicológica. Essa taxa é significativamente mais alta do que a observada em mulheres que nunca tiveram filhos. A situação, embora com uma redução, permanece preocupante para mães de crianças mais velhas, acima de 18 meses, que ainda enfrentam um risco 60% superior de serem vítimas de abuso emocional.
É crucial notar que, enquanto a violência psicológica se mostra alarmantemente prevalente, o estudo não identificou alterações significativas nas taxas de violência física ou sexual durante a gestação e o pós-parto, em comparação com outros momentos da vida da mulher. Isso sugere uma mudança no padrão do comportamento abusivo do parceiro, que se concentra em agressões emocionais e verbais nessa fase específica.
A face oculta da violência psicológica
A pesquisa da USP definiu a violência psicológica por parceiro íntimo de forma abrangente, incluindo uma série de comportamentos que minam a saúde mental e a dignidade da mulher. Entre eles, destacam-se xingamentos, gritos, insultos, humilhações ou ridicularização em público, ameaças de agressão à mulher ou a pessoas próximas, destruição intencional de objetos pessoais, e o uso de redes sociais ou celular para ameaçar ou expor imagens sem consentimento.
Na população geral de mulheres analisada, a taxa de violência psicológica foi de 7,9%, enquanto a de violência física ou sexual atingiu 3,6%. Essa diferença ressalta a predominância do abuso emocional, que muitas vezes é invisível e subestimado, mas cujas consequências podem ser tão devastadoras quanto as da violência física.
Impactos profundos na saúde e no desenvolvimento
As repercussões da violência durante a gestação e o pós-parto são amplas e preocupantes. Para a mãe, o abuso psicológico pode desencadear sérios problemas de saúde mental, como depressão pós-parto e, em casos extremos, ideação suicida. A saúde do feto também é comprometida, com riscos aumentados de partos prematuros e o desenvolvimento de problemas emocionais futuros para a criança, criando um ciclo de vulnerabilidade que se estende por gerações.
Além disso, o estudo aponta para fatores sociais que exacerbam o risco. Mulheres com baixa escolaridade (ensino fundamental incompleto ou completo) e renda familiar reduzida (até meio salário mínimo por pessoa) são as mais suscetíveis a sofrer violência psicológica, física e sexual. Essa correlação destaca a intersecção entre vulnerabilidade socioeconômica e a exposição ao abuso.
Fatores sociais e o papel da saúde pública
Diante desse cenário, o autor e pesquisador da FMUSP, Alexandre Faisal Cury, enfatiza a urgência de tratar a violência por parceiro íntimo como um problema de saúde pública, com foco especial nas populações mais vulneráveis. A pesquisa utilizou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisando respostas de 26.006 mulheres de 18 a 49 anos de todas as regiões do país, divididas em grupos conforme o histórico reprodutivo.
Os pesquisadores defendem o fortalecimento de estratégias de prevenção voltadas ao período perinatal, que engloba o pré-natal e os primeiros meses de vida do bebê. A recomendação é clara: equipes de saúde que atendem gestantes e puérperas devem receber treinamento adequado para identificar os sinais sutis de abuso psicológico e oferecer acolhimento e suporte antes que a situação se agrave. Para mais informações sobre como buscar ajuda e denunciar casos de violência, o Ministério da Mulher, por exemplo, oferece canais de atendimento e orientação, como o Ligue 180. Acesse aqui para saber mais.
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