A rotina dos profissionais de enfermagem no estado de São Paulo é marcada por um cenário alarmante de violência. Uma pesquisa recente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) revelou que sete em cada dez enfermeiros, técnicos e auxiliares foram vítimas de algum tipo de agressão no ambiente de trabalho nos últimos 12 meses. Os dados, divulgados em 10 de agosto de 2026, acendem um alerta sobre a segurança e as condições de trabalho de uma das categorias mais essenciais para a saúde pública e privada.
O levantamento, que ouviu 4.402 profissionais entre 20 e 24 de julho, aponta que 72,6% dos entrevistados sofreram agressões, sendo que 41,3% foram vítimas mais de uma vez e 15,5% com frequência. Embora o índice seja ligeiramente menor que o de uma pesquisa anterior, de maio de 2025, que registrou 80,3% de agressões, a persistência de números tão elevados surpreende o presidente do Coren-SP, que esperava uma redução mais significativa após as campanhas de prevenção realizadas no último ano.
A realidade da violência contra a enfermagem no dia a dia
As agressões relatadas pelos profissionais de enfermagem não se limitam a xingamentos ou ameaças verbais. Casos de violência física, como socos, chutes e até ameaças com arma, fazem parte da rotina, muitas vezes desencadeados por situações de estresse e insatisfação dos pacientes e acompanhantes. A demora no atendimento e a estrutura precária das instituições públicas são apontados como os principais estopins para esses conflitos, evidenciando falhas sistêmicas que reverberam diretamente na segurança dos trabalhadores.
A enfermeira Vanessa Scarcella, de 44 anos, compartilha experiências traumáticas que ilustram essa dura realidade. Ainda recém-formada, aos 21 ou 22 anos, foi agredida por um paciente irritado com a fila de espera em um hospital público do litoral norte paulista. “Ele me segurou pelo crachá, me jogou no chão e me deu um chute na barriga”, relata. Anos depois, em um hospital privado na capital, foi novamente agredida, desta vez por um colega de outra profissão. “Ele segurou o meu punho, apertou e me jogou no chão.” A denúncia, nesse caso, resultou em seu desligamento, e as câmeras de segurança que poderiam comprovar a agressão “desapareceram”, sem que houvesse investigação.
Outro relato contundente é o de Wagner Albino Batista, enfermeiro de 45 anos com 25 anos de experiência, a maioria na saúde pública. Ele recorda o dia em que, em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) lotada em Guarulhos, com mais de 200 pessoas na fila, um acompanhante se irritou com a classificação de risco de um paciente. “Ele me deu um soco no rosto e apontou a arma dizendo que estava armado”, conta Wagner, descrevendo o desespero de ter que proteger a si e aos demais.
Propostas legislativas para combater a violência
Diante desse cenário preocupante, o tema tem ganhado espaço no debate público e legislativo. Recentemente, em 4 de agosto, uma audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo discutiu a questão. Tramita na casa um projeto de lei, de autoria da vereadora Ana Carolina Oliveira (Podemos), que visa obrigar as unidades de saúde do município – sejam públicas, privadas ou conveniadas ao SUS – a implementar políticas de prevenção, registro, acolhimento e resposta à violência e ao assédio contra a enfermagem.
Entre as medidas propostas pelo projeto estão o controle de acesso às unidades, a instalação de botões de pânico, o atendimento médico e psicológico imediato para as vítimas, com afastamento do trabalho sem prejuízo salarial, a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) quando cabível, e a capacitação das equipes em técnicas de desescalada de conflitos. Essas iniciativas buscam criar um ambiente de trabalho mais seguro e oferecer suporte adequado aos profissionais agredidos.
No âmbito federal, o Senado aprovou no mês passado um projeto de lei que endurece as penas para crimes como lesão corporal, ameaça, incitação ao crime, desacato e homicídio, quando praticados contra profissionais da saúde ou da educação. Em alguns casos, a pena pode ser acrescida em até dois terços ou até mesmo dobrada. Como o texto original veio da Câmara dos Deputados e sofreu alterações no Senado, ele retornará à Câmara para uma nova análise antes de ser sancionado. Essas movimentações legislativas refletem a crescente conscientização sobre a necessidade de proteger esses trabalhadores essenciais.
A violência contra a enfermagem é um problema multifacetado que exige atenção contínua e soluções abrangentes. Desde a melhoria das condições de trabalho e infraestrutura nas unidades de saúde até a implementação de leis mais rigorosas e programas de apoio psicológico, é fundamental garantir que esses profissionais possam exercer suas funções com dignidade e segurança. A sociedade, por sua vez, precisa reconhecer o valor da enfermagem e contribuir para um ambiente de respeito e valorização. Para acompanhar mais notícias e análises aprofundadas sobre saúde e temas relevantes para o Brasil e o mundo, continue acessando o M1 Metrópole, seu portal de informação relevante e contextualizada.